segunda-feira, 1 de maio de 2017

Adeus, Belchior (ou uma nota elogiosa a alguém que admiro)

Eu sempre gostei de Belchior. Acho que essa simpatia instantânea, esse gostar já no primeiro contato, tem relação com minha mãe, que dizia gostar daquela música que tocava nos "bailinho do seu tempo". Ela se referia à "coração selvagem".

Era a primeira vez, aos quatorze anos no máximo, que ouvia uma canção sobre um amor real, feito de coisas concretas como refrigerantes e cachorros-quente.

Outras duas também ficaram na memória: a preferência pela versão do compositor para "como nossos pais", em relação à interpretação da Elis Regina, fazia parte da minha "contracultura" adolescente, resumida em ser do contra; e "medo de avião", que marcou minhas primeiras incursões na música brasileira. Em uma versão específica - talvez ainda disponível no youtube, preciso procurar - ele dava um gritinho em falsete após "não fico mais nervoso, você já não grita..." Iiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii "e a aeromoça sexy fica mais bonita".

Ah, como eu gostei daquilo!

Sei que na época já ouvia alguma coisa de Chico, alguma coisa de bossa e muito indie rock; mas esta vocalização me chamou atenção de uma forma diferente. Ali tinha alguma coisa boa que eu não sabia muito bem o que era.

Hoje percebo que ouvia apenas o Belchior que a indústria cultural vendeu: um cantor brega bigodudo.

Entre 2016 e 2017 baixei para viajar o álbum alucinação, de 1976. Este hiato de 10 a 13 anos entre o primeiro contato e a experiência de desfrutar das férias no litoral ao som de Belchior foi fundamental. Entendo que foi necessário adquirir certo repertório para a compreensão da profundidade filosófica de suas músicas. Ter cursado História me ensinou como as produções humanas dizem sobre seu tempo. Assim, a cada vez que ouvia - e ouvi muitas vezes nesta jornada! - entendia melhor como era o Brasil da década de 1970 (confesso que, um pouco mais tarde, este texto ajudou a expandir meus horizontes para a percepção da importância deste artista - vale a pena investir tempo nesta leitura!).

Cantou a migração nordeste-sudeste, as desigualdades étnicas e sociais, a violência dos centros urbanos; versou sobre a democracia, mesmo que nas entrelinhas; disse-nos ser fundamental sempre desobedecer e nunca reverenciar; além de nos ensinar que amar e mudar as coisas interessa mais.

Fui aprendendo a ser mais humana com Belchior.

Quando percebi a complexidade daquilo que cantava, fiquei fascinada. Imagino que amigos próximos já estavam insatisfeitos por me ouvirem reiteradamente expressar minha opinião sobre a genialidade de Belchior. Gravei alguns vídeos em que toquei e interpretei algumas de suas canções. A intenção era divulgar sua obra e colaborar para que as pessoas (ou)vissem aquilo subjacente à letra e tributassem à Belchior o local que lhe é merecido: um dos melhores compositores brasileiros.

Pensei, por vários dias, em escrever-lhe uma carta dizendo sobre minha admiração e como lamento o fato das pessoas o ouvirem apenas com os ouvidos e não com o cérebro (o desconhecimento de seu paradeiro desestimulou a escrita da carta).

Fico triste porque hoje Belchior tem muitos fãs. Justo hoje que ele morreu. E tudo isto somente porque ele está morto. É um dos assuntos mais comentados na rede e muito disto porque ele, para muitos, continuava sendo o mesmo cantor brega e bigodudo - que fugiu do Brasil.

A compreensão que se tem de sua obra é ainda muito superficial. Belchior, dizia ele mesmo, procurava seu "delírio com coisas reais". Esta característica é bastante perceptível em suas canções. O compositor era "como você". Ele buscava entender o funcionamento da vida e posicionar-se de maneira crítica.
Dadas as nossas condições estruturais políticas, econômicas, sociais..., Belchior nunca foi tão atual. Espero que ele ainda possa nos inspirar. Tal como ele fez, mesmo hoje, ainda é concebível movimentos de resistência por meio da música.

Obrigada por tudo.
Valeu, Belchior!

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