segunda-feira, 3 de abril de 2017

Porque eu escrevo

Indiquei hoje meu blog para alguém.
A circunstância me fez lembrar de sua existência.
Me questiono porquê de uns tempos para cá não quis mais escrever - literatura, no caso.
E não me faltam ideias.
Também não posso dizer que é ausência de tempo, porque poderia investi-lo em ócio mais criativo que ver televisão.
Se fosse para dar a você, leitor, uma resposta objetiva, eu diria: consciência histórica e de mim.
Outras vezes, noutros arremedos de texto, devo ter alegado que o empecilho às letras seria a falta de tristeza (ou presença de felicidade - não sei).
Não posso resumir meu período literário - datado desde a época de escola, quando eu sonhava escrever um livro - a um contínuo de melancolia.
Costumava ser bastante alegre e otimista, até
(contradição proposital para demonstrar enfaticamente como o ser humano é contraditório).

Mas o que havia lá que não há cá? O que me motivava a escrever que hoje me escapa?!
Uma visão de mundo mais determinada, menos ingênua, mais ambiciosa e menos amável.
(Não necessariamente nesta ordem, nem sempre tudo ao mesmo tempo!)

A juventude a ingenuidade são parceiras e, não por mal - jamais! - , acabamos por acreditar na bondade das pessoas, na vontade, desmedida, de mudar o mundo e em nosso potencial de transformação.
Conforme vamos experimentando os dissabores de relacionamentos frustados, de amizades eternas interrompidas porque as pessoas que se davam bem trilharam caminhos completamente opostos, de condições de trabalho degradantes, de acontecimentos políticos e econômicos desumanos e de toda a sorte de experiências históricas, ampliamos nossa visão de mundo e adotamos uma lente - construída a partir de nossas leituras e meio - para enxergar a realidade.

Dependendo dos referentes que conformam este olhar o mundo pode ser um lugar feio:
Pessoas traem, você desperdiça seu tempo em coisas banais, o trabalho consome sua energia vital e o cansaço decorrente dele não permite engrandecer seus horizontes, as decisões políticas retiram direitos historicamente conquistados.

A consciência histórica que tenho (o observar os acontecimentos pretéritos e as relações de poder presentes para me orientar em relação às possibilidades de futuro) me desestimula.

Quando eu escrevia para narrar o amor era afim de inundar as pessoas daquilo de bom que eu sentia, mas visando a transformação.
No mínimo, minha.
E funcionava.

Terapêutica pode ser a arte de escrever.
De se abrir.
De se ler para escrever.
Eu falava muito de mim.
Me narrava. Me abria, como o livro que era. (Sem temor)

Mas acontece que quanto mais eu cresço, mais me restrinjo por uma imposição social externa: o que esperam de mim.
As responsabilidades de pessoa grande não nos deixam falar de nós mesmos com a naturalidade daquilo que era natural, mas que os constrangimentos das relações em sociedade silenciaram.

E agora enquanto escrevo a mágica acontece: estou me (re)pensando!
E logo percebo que não posso responsabilizar a dádiva histórica da consciência por minha perspectiva artística pequena.
Devo mesmo é aproveitar esta nova fase da minha vida e tudo aquilo que já aprendi para buscar, outra vez, a poesia em mim - e porque não tentar aprender a abordar novos temas?!
Quem sabe na crítica, de cunho literário, ao contexto atual eu encontre nova motivação.

Nossa! Como é bom escrever! Este exercício, que estimula o pensar de mim, acaba de, mais uma vez, me ajudar a me pensar e me entender.
Por que escrevia e por que não escrevo mais?
Já sei que não sei, mas também sei que quero fazê-lo com maior frequência!

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