segunda-feira, 8 de maio de 2017

I need you so much closer

(leia o texto ouvindo a música)

Tô aqui, parada, ensaiando um texto, com as palavras todas travadas, porque ainda não assimilei.

Independente do que eu sinto, espero, sinceramente, que você tenha encontrado o alívio à dor que procurava.

Queria ser dessas que acreditam em horóscopo, em coisas místicas-mágicas e que pensa que há algo ou alguém que conforta quem fica e que há um destino marcado para quem vai. Eu só acredito que acabou. O nosso possível real agora é só o sentimento de que é tarde. É tarde pra eu dizer o que eu já sentia e que ficou ainda mais nítido quando você se foi.
Mas eu não quero esquecer e por isso escrevo.
Escrevo pra dizer pra você ou pro vento; escrevo para poder me entender, pois eu não esperava de mim sentir tanto, sofrer tanto por não poder entender.
Sempre achei a morte uma coisa natural. Vai ver é como ele diz, só tenho determinados posicionamentos por não ter experimento a morte mais de perto.
E é um engano pensar que a vida "segue a ordem natural das coisas", ou seja, imaginar que idosos morreriam primeiro porque nasceram primeiro. Acho que ainda vivo nesta ilusão. Ou vivia. E agora você se foi, João Roberto. (referência à música/bilhete Dezesseis - Legião Urbana)
E eu só consigo lamentar por chorar as expectativas que criei e nem te contei.
E NEM TE CONTEI.
E é por isso que você não soube o quanto já era amada e seria amparada. É por eu me ausentar de palavras que você se sentiu só, quando, ao mínimo sinal, eu (e nós) teríamos estado com você.
Não.
Me desculpa.
Não posso te responsabilizar.
Como você poderia saber se não verbalizei?!
A culpa é minha. A culpa é de quem se acovardou. A culpa é de quem se ausentou.
A culpa é um pouco tua também porque escolheu se livrar da dor. E eu entendo que a decisão de não ser mais você foi pra sentir-se livre do sofrimento. Queria eu ter podido fazer algo para amenizar sua tristeza antes deste fim...
Você, desde o primeiro momento, trouxe muita coisa boa para mim: depois de tanto tempo eu consegui perceber sentimentos novos em meu avô, falar mais de amor com meu pai e minha mãe, querer fazer amizade com alguém novo...
Você, em minha interpretação parcial, foi um novo fôlego de vida pra família. Só que não foi avisada de sua importância.
Novamente nos calamos. (...) Eu tentei falar. Questionei. Mas (...) tudo que é considerado espinhoso vai pra debaixo do tapete. E você ficou lá, esperando um mínimo sinal... Que não veio.
Me desculpa por não ter tido maturidade pra fazer o que eu acreditava que deveria ser feito. Eu queria ter comprado esta briga, mas se tivéssemos tido oportunidade nos amarmos por inteiro você saberia que eu odeio brigar. Eu fico calada. Remoendo.
E agora, em sua ausência, chorando.

E são tantas perguntas sem respostas...
Por que lidar com o suicídio é tão difícil?
Eu acredito no direito das pessoas em desistir de viver. E veja como sou dissimulada! Neste caso, sendo eu totalmente parcial, queria você aqui.
Aqui mesmo. S2
______


The atlantic was born today and i'll tell you how...
The clouds above opened up and let it out.
I was standing on the surface of a perforated sphere
When the water filled every hole.
And thousands upon thousands made an ocean,
Making islands where no island should go.
Oh no.
Those people were overjoyed; they took to their boats.
I thought it less like a lake and more like a moat.
The rhythm of my footsteps crossing flood lands to your door have been silenced forever more.
The distance is quite simply much too far for me to row
It seems farther than ever before. Oh no.
I need you so much closer
I need you so much closer
So come on, come on 

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Adeus, Belchior (ou uma nota elogiosa a alguém que admiro)

Eu sempre gostei de Belchior. Acho que essa simpatia instantânea, esse gostar já no primeiro contato, tem relação com minha mãe, que dizia gostar daquela música que tocava nos "bailinho do seu tempo". Ela se referia à "coração selvagem".

Era a primeira vez, aos quatorze anos no máximo, que ouvia uma canção sobre um amor real, feito de coisas concretas como refrigerantes e cachorros-quente.

Outras duas também ficaram na memória: a preferência pela versão do compositor para "como nossos pais", em relação à interpretação da Elis Regina, fazia parte da minha "contracultura" adolescente, resumida em ser do contra; e "medo de avião", que marcou minhas primeiras incursões na música brasileira. Em uma versão específica - talvez ainda disponível no youtube, preciso procurar - ele dava um gritinho em falsete após "não fico mais nervoso, você já não grita..." Iiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii "e a aeromoça sexy fica mais bonita".

Ah, como eu gostei daquilo!

Sei que na época já ouvia alguma coisa de Chico, alguma coisa de bossa e muito indie rock; mas esta vocalização me chamou atenção de uma forma diferente. Ali tinha alguma coisa boa que eu não sabia muito bem o que era.

Hoje percebo que ouvia apenas o Belchior que a indústria cultural vendeu: um cantor brega bigodudo.

Entre 2016 e 2017 baixei para viajar o álbum alucinação, de 1976. Este hiato de 10 a 13 anos entre o primeiro contato e a experiência de desfrutar das férias no litoral ao som de Belchior foi fundamental. Entendo que foi necessário adquirir certo repertório para a compreensão da profundidade filosófica de suas músicas. Ter cursado História me ensinou como as produções humanas dizem sobre seu tempo. Assim, a cada vez que ouvia - e ouvi muitas vezes nesta jornada! - entendia melhor como era o Brasil da década de 1970 (confesso que, um pouco mais tarde, este texto ajudou a expandir meus horizontes para a percepção da importância deste artista - vale a pena investir tempo nesta leitura!).

Cantou a migração nordeste-sudeste, as desigualdades étnicas e sociais, a violência dos centros urbanos; versou sobre a democracia, mesmo que nas entrelinhas; disse-nos ser fundamental sempre desobedecer e nunca reverenciar; além de nos ensinar que amar e mudar as coisas interessa mais.

Fui aprendendo a ser mais humana com Belchior.

Quando percebi a complexidade daquilo que cantava, fiquei fascinada. Imagino que amigos próximos já estavam insatisfeitos por me ouvirem reiteradamente expressar minha opinião sobre a genialidade de Belchior. Gravei alguns vídeos em que toquei e interpretei algumas de suas canções. A intenção era divulgar sua obra e colaborar para que as pessoas (ou)vissem aquilo subjacente à letra e tributassem à Belchior o local que lhe é merecido: um dos melhores compositores brasileiros.

Pensei, por vários dias, em escrever-lhe uma carta dizendo sobre minha admiração e como lamento o fato das pessoas o ouvirem apenas com os ouvidos e não com o cérebro (o desconhecimento de seu paradeiro desestimulou a escrita da carta).

Fico triste porque hoje Belchior tem muitos fãs. Justo hoje que ele morreu. E tudo isto somente porque ele está morto. É um dos assuntos mais comentados na rede e muito disto porque ele, para muitos, continuava sendo o mesmo cantor brega e bigodudo - que fugiu do Brasil.

A compreensão que se tem de sua obra é ainda muito superficial. Belchior, dizia ele mesmo, procurava seu "delírio com coisas reais". Esta característica é bastante perceptível em suas canções. O compositor era "como você". Ele buscava entender o funcionamento da vida e posicionar-se de maneira crítica.
Dadas as nossas condições estruturais políticas, econômicas, sociais..., Belchior nunca foi tão atual. Espero que ele ainda possa nos inspirar. Tal como ele fez, mesmo hoje, ainda é concebível movimentos de resistência por meio da música.

Obrigada por tudo.
Valeu, Belchior!

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Porque eu escrevo

Indiquei hoje meu blog para alguém.
A circunstância me fez lembrar de sua existência.
Me questiono porquê de uns tempos para cá não quis mais escrever - literatura, no caso.
E não me faltam ideias.
Também não posso dizer que é ausência de tempo, porque poderia investi-lo em ócio mais criativo que ver televisão.
Se fosse para dar a você, leitor, uma resposta objetiva, eu diria: consciência histórica e de mim.
Outras vezes, noutros arremedos de texto, devo ter alegado que o empecilho às letras seria a falta de tristeza (ou presença de felicidade - não sei).
Não posso resumir meu período literário - datado desde a época de escola, quando eu sonhava escrever um livro - a um contínuo de melancolia.
Costumava ser bastante alegre e otimista, até
(contradição proposital para demonstrar enfaticamente como o ser humano é contraditório).

Mas o que havia lá que não há cá? O que me motivava a escrever que hoje me escapa?!
Uma visão de mundo mais determinada, menos ingênua, mais ambiciosa e menos amável.
(Não necessariamente nesta ordem, nem sempre tudo ao mesmo tempo!)

A juventude a ingenuidade são parceiras e, não por mal - jamais! - , acabamos por acreditar na bondade das pessoas, na vontade, desmedida, de mudar o mundo e em nosso potencial de transformação.
Conforme vamos experimentando os dissabores de relacionamentos frustados, de amizades eternas interrompidas porque as pessoas que se davam bem trilharam caminhos completamente opostos, de condições de trabalho degradantes, de acontecimentos políticos e econômicos desumanos e de toda a sorte de experiências históricas, ampliamos nossa visão de mundo e adotamos uma lente - construída a partir de nossas leituras e meio - para enxergar a realidade.

Dependendo dos referentes que conformam este olhar o mundo pode ser um lugar feio:
Pessoas traem, você desperdiça seu tempo em coisas banais, o trabalho consome sua energia vital e o cansaço decorrente dele não permite engrandecer seus horizontes, as decisões políticas retiram direitos historicamente conquistados.

A consciência histórica que tenho (o observar os acontecimentos pretéritos e as relações de poder presentes para me orientar em relação às possibilidades de futuro) me desestimula.

Quando eu escrevia para narrar o amor era afim de inundar as pessoas daquilo de bom que eu sentia, mas visando a transformação.
No mínimo, minha.
E funcionava.

Terapêutica pode ser a arte de escrever.
De se abrir.
De se ler para escrever.
Eu falava muito de mim.
Me narrava. Me abria, como o livro que era. (Sem temor)

Mas acontece que quanto mais eu cresço, mais me restrinjo por uma imposição social externa: o que esperam de mim.
As responsabilidades de pessoa grande não nos deixam falar de nós mesmos com a naturalidade daquilo que era natural, mas que os constrangimentos das relações em sociedade silenciaram.

E agora enquanto escrevo a mágica acontece: estou me (re)pensando!
E logo percebo que não posso responsabilizar a dádiva histórica da consciência por minha perspectiva artística pequena.
Devo mesmo é aproveitar esta nova fase da minha vida e tudo aquilo que já aprendi para buscar, outra vez, a poesia em mim - e porque não tentar aprender a abordar novos temas?!
Quem sabe na crítica, de cunho literário, ao contexto atual eu encontre nova motivação.

Nossa! Como é bom escrever! Este exercício, que estimula o pensar de mim, acaba de, mais uma vez, me ajudar a me pensar e me entender.
Por que escrevia e por que não escrevo mais?
Já sei que não sei, mas também sei que quero fazê-lo com maior frequência!