sábado, 15 de setembro de 2012

nós dois éramos três e/ou agora dois e eu sozinha

[esse texto pode soar desconexo pra você, que não sente como eu]


Você acha que é fácil assim, contar dos sonhos mais banais e de um plano pro futuro? Você acha que é fácil assim, dizer que gosto de você, mesmo quando luto pra tentar sentir o contrário? Você acha que é fácil assim, abrir o coração e ler meus escritos mais particulares para você? Você acha que é fácil assim, viver por um amanhã pelo que se sente hoje? Você até pode achar fácil essas e tantas outras coisas, mas para mim não o é. E quando eu te olhava no olho, sendo sincera de sentimentos e tentava fazer com que você igualmente baixasse a guarda e reaprendesse a amar, era por um motivo nobre: bem-querer. E eu quis. Quis por muitos dias que pudesse dar certo. Quis por muitos dias te chamar de meu e dormir contigo, ouvindo o canal de músicas da tevê à cabo. Eu quis cuidar de ti, que já foi tão ferido como eu. Quis cuidar de você, para que juntos pudéssemos fazer coisas boas e, quem sabe, voltássemos a sorrir. E quando eu me coloquei em segundo plano, deixei meus sentimentos, desejos e vontades de lado foi por gostar de ti e respeitá-lo. E quando eu ouvia suas palavras que não faziam sentido algum pra mim, só pra você, eu tentava entender e esperar. E te curar. E te fazer sentir-se bem. Eu queria vê-lo gargalhando por bobeira, só por ver quando a vida é boa. Eu tentei por muito tempo entender quando você dizia que precisa tratar-se sozinho, para, então, poder andar de mãos dadas e assistir a um filme cult juntos. Por falta de esforço não foi. Mas é que eu quero tudo pra ontem e o quis assim também. Queria você aqui já faz um tempo. Talvez desde uma infância já remota, quando a gente cria uns amores platônicos. Você sabe, você sempre foi um deles. E agora, que eu poderia, quem sabe, ter você, o tempo passou. Um breve tempo passou. Uma? Duas semanas? Não sei. Eu só sei que a gente sempre tem um segundo plano. Lamento ter sido o seu. Lamento ter sido usada para que você se estabilizasse emocionalmente, para seguir sua vida longe de mim. E por mais que eu diga pra mim mesma que eu não queria estar contigo, penso ser mentira quando sinto raiva. Pior, inveja. Eu queria estar no lugar dela. Eu fiz todo o trabalho sujo para ela chegar e pegar a sala de estar limpa. Coração limpo. E agora, outra vez eu finjo que está tudo bem. Pulo na cama elástica como criança, para tentar dar risada da vida, que vive me colocando de ponta cabeça em cambalhotas. Mas agora, em casa, talvez eu devesse chorar. Seria bom. Eu me sentiria bem. Eu não choro desde aquele dia, em que você enxugou minhas lágrimas e pediu para eu parar, para você não quedar-se em lágrimas junto à mim. Eu queria chorar por você, chorar por amor. Chorar por aquele futuro que não foi, pelas viagens que me prometeste ao Leste Europeu... Chorar pelo que havia de ser e não foi. Mas o máximo que eu conseguiria é de raiva. E é uma raiva diferente: é uma vontade de acabar com a sua felicidade, só para que você voltasse pra onde estava e de onde te tirei. É vontade de gritar pelo mundo as coisas ruins que fazes só para eu ter o prazer de fazê-lo chorar. É vontade de te fazer novamente vazio, como me sinto agora. E o pior é que é uma raiva não pelo que já foi, não pelo que não foi, mas por eu ter sido seu segundo plano sem ser comunicada. Eu sei, eu sei, todo o mundo tem seu segundo plano. Eu sei, eu sei, todo mundo é um segundo plano de alguém. É normal. São mecanismos de defesa que criamos. É melhor ter duas pessoas para não ter verdadeiramente uma só. Talvez seja menos dolorido caso se distribua o amor. Aí, a dor vem em doses homeopáticas. Eu só lamento que nós dois éramos três e agora dois e eu sozinha. E pode ser despeito, por me achar mil vezes mais inteligente. Mais bonita talvez não. Mas eu sei falar sobre coisas do universo, das sociedades e arrisco até umas datas históricas. E eu sei ser amor. Você, diferente de muitos, teve a oportunidade de conhecer um pouco de quem verdadeiramente sou. Queria que isso fosse entre nós um segredo eterno e que eu pudesse dia-a-dia te mostrando coisas novas. Queria ter uma rotina pra quebra-la. Queria fazer o teu mundo girar, na minha órbita. Queria tirar teus pés do chão. Na verdade, eu só queria fazer você sentir o que sinto quando estou próxima à você: vontade de te bater, te tanto gostar de você. Porque seria mais fácil se o errado fosse verdadeiramente você, que vê a saída e agora tem alguém. E deixou de estar livre sem direção.

E só de raiva eu vou parar de ouvir Sondre Lerche. 

Um comentário:

Anônimo disse...

Pra mim a sua vida --- e não só os seus textos ---, sempre vão ser desconexos. mas essa desconexão não é por falta de sentido, ou de sentimento, mas simplesmente porque sua desconexão é por excesso de vida, e não por falta de lógica ou assunto, ou por falta de expressão. quem ama mesmo se desconecta de tudo, e tudo fica sei lá, fica sem muito sentido... por isso que amor e loucura caminham juntos e são extremamentes anárquicos; os apaixonados nunca aceitam a lógica da maioria das pessoas, nem os códigos de comportamento...
esse seu blog é muito pessoal nesse sentido, porque aqui você não obedece alguns códigos, e se liberta dos seus fantasmas, e cria também novas miragens. pra mim é muito difícil lê-lo por esse fator, porque transpira seus abismos; como uma primeira dose de vodka do dia, desce queimando o peito. rsss

Beijão


Maik