segunda-feira, 22 de agosto de 2011

recaída

e quando meu celular tocou era um convite. mariana me chamando pra sair, com ela e com a janaína. eu ando meio desanimada, sabe? hesitei em aceitar, mas a juliana, a garota que mora comigo, também queria sair. mas sair pra que? toda vez que chego tarde da rua, já cansada, e tento dormir, todos os meus devaneios do pré-dormir são sobre ele. e o mais incrível, são quase sonhos que são quase bons. depois de alguma insistência, cedi. não posso, afinal de contar, ficar em casa, o tempo todo, chorando por um amor que já morreu. tomei um banho longo, daqueles que você toma querendo lavar a alma. vesti o vestido xadrez, com tons rosáceos, que ele, que tem muito bom gosto, me deu, coloquei a sapatilha preta nova, que comprei em cinco vezes na pague menos calçados, e passei o carolina herrera que ele também me deu, o problema é que toda vez que uso esse perfume penso em como queria usar para estar com ele, não com um desconhecido qualquer. e o pior, acho que ele nem terminou de pagar o perfume, que parcelou em algumas vezes no cartão da minha ex-sogra. por fim, passei batom vermelho, aquele que tantas vezes usei para sair com ele. eu estava me sentindo bonita, como poucas vezes tenho sentido nos últimos cinquenta e dois dias. a juliana também estava muito bonita, com a parca preta. eu também coloquei um casaco preto, porque se locomover de moto no inverno ponta-grossense é bastante complicado. depois de pouco mais de seis quilômetros, chegamos. estacionei a moto em frente a universidade e descemos alguns metros até o bar. quando chegamos, as meninas já estavam lá. fui direto para a mesa, dar oi. e já na entrada percebi que elas me olhavam de maneira diferente. no começo, distraída como sou, não percebi nada diferente. foi então que a mariana, através do olhar me apontou uma mesa. e foi aí que começou a bebedeira. eu queria mostrar que estava feliz, que já havia remediado todas as feridas e que estava, finalmente, recomeçando minha vida. apesar de minha tentativa de simular tranquilidade, a presença dele ali, no parada obrigatória, bar que tantas vezes fomos juntos papear e rever amigos, me deixava insegura. mesmo ele estando com mais três rapazes, o tempo todo eu cogitava a possibilidade de chegar uma garota o chamando de amor. depois de algumas horas de conversa forjada, riso fingido e algumas doses, eu dei a letra:
- gente, eu vou até lá!
- tá louca?! - gritou a mariana
não dei ouvidos. segui. que eu tenha observado, ele não havia olhado para nossa mesa uma vez sequer, no entanto, conhece meu cheiro e a minha voz. e eu fui. mesmo sem saber o que direito falar, mas fui. parei ao lado dele e fiquei o observando, até o momento que dirigiu seu olhar ao meu. e eu disse apenas:
- eu ainda te amo.
ele ficou imóvel. nem piscava direito. eu me abaixei. aproximei meus lábios dos dele e dei um beijo suave, daqueles que se dá com o coração. em seguida, voltei à minha mesa. avisei apenas que estava voltando para a casa. elas todas faziam milhões de perguntas, querendo saber porque eu tinha feito aquilo e como eu estava me sentindo. eu disse, falei milhões de vezes para não se preocuparem. tinha sido apenas uma recaída...

domingo, 21 de agosto de 2011

palavras que deveriam ser minhas em boca alheia

“Eu te amei muito. Nunca disse, como você também não disse, mas acho que você soube. Pena que as grandes e as cucas confusas não saibam amar. Pena também que a gente se envergonhe de dizer, a gente não devia ter vergonha do que é bonito. Penso sempre que um dia a gente vai se encontrar de novo, e que então tudo vai ser mais claro, que não vai mais haver medo nem coisas falsas. Há uma porção de coisas minhas que você não sabe, e que precisaria saber para compreender todas as vezes que fugi de você e voltei e tornei a fugir. São coisas difíceis de serem contadas, mais difíceis talvez de serem compreendidas — se um dia a gente se encontrar de novo, em amor, eu direi delas, caso contrário não será preciso. Essas coisas não pedem resposta nem ressonância alguma em você: eu só queria que você soubesse do muito amor e ternura que eu tinha — e tenho — pra você. Acho que é bom a gente saber que existe desse jeito em alguém, como você existe em mim.” cfa

Promessas - por thaic

"Eu queria hoje poder sentar aqui e falar um pouco da minha dor. Mas não consigo. Ela já está tão velada no meu peito, tão envolta pela minha rotina sem você, que eu já não consigo separá-la de mim para encarar seus olhos e descrevê-la. È que desde criança eu vivo assim, preferindo não pensar pra não fazer doer. É que sua ausência me matou por muitos dias. Me fez chorar por muitos dias. Me fez pensar em porquês, em razões, em desesperança e em egoísmo. Eu era criança. Eu não entendia. Eu ainda não entendo. Nenhuma desculpa jamais vai ser suficiente pra entender por que o mundo levou você de mim. Eu te precisava tanto. Eu ainda preciso. Mas cresci, sobrevivi, sem a palavra e o significado que pra tantos é rotina. Eu não sei o que é. Não sei descrever. Não sei falar sobre. Desculpa, não acho que seja culpa de ninguém (...) Mas aconteceu, e como num sopro, tudo o que eu tinha de você era poeira, meia dúzia de fotos e umas lembranças ruins, daquelas que a mente infantil nunca esquece, da bronca e dos gritos por causa de alguma coisa que eu fazia e não devia. Desculpa. Não faço mais. Nunca mais. Por que, agora, você não pode mais me corrigir. Então, o que eu deveria fazer? Qual é o plano de ação agora? Eu juro que eu tentei guardar silencio, brincar de forte, fazer de conta que eu não ligo. Eu juro que deixo escapar a palavra como quem não quer nada, como quem não se fere. E a escuto sair da boca de quem vive, de quem ainda tem, de quem não entende nada sobre o que eu sinto e se sente no direito de me dizer como devia ser. E eu sorrio falso, mas firme, que é pra ninguém achar que eu sou fraca, e que não superei. Mas eu não superei. Como poderia? Eu amo você. Daqueles amores que vão na alma, como devia ser. (...) eu queria um abraço. Eu queria uma palavra. Eu queria lembrar dos seus olhos. Ah, céus, como eu queria ter mais que uma imagem e o som de um grito, que mesmo ruins, já se esvaíram a tempo da caixa da memória onde te guardei. E agora? Eu vou ter que esperar pro infinito nos fazer reencontrar? È que dói. Mas eu te prometo, vou ser forte. Eu prometo, vou esperar. Vou fingir, se tiver, pra só você saber da minha dor, da minha espera, dessa nossa promessa. Pra não fazer doer naqueles que a gente ama também. A gente vai se reencontrar. Eu vou encarar esses olhos negros (...) Vou achar meu rosto no seu, cara-a-cara, e não nas fotografias velhas em que eu não consigo mesmo te reconhecer. E vou viver até lá. E vou dar o meu melhor, pra viver feliz, pra alcançar. Mas vou chegar. Olhe por mim até lá. E guarda seus braços pro nosso abraço. Eu vou cobrar."


___


e hoje, pela primeira vez em dias, o pranto se fez público. e foi lendo o texto acima que chorei. e como eu precisava disso. quase me sinto leve, que quase volto a sonhar. obrigada a thaic, dona do blog de onde retirei este texto, por tirar de mim essas lágrimas que nunca rolavam e obrigada por escrever por mim, quando nem eu mais sei o que sinto. e é só saudade. e é só o peito apertado, que insiste em trazer para perto o que não tem mais volta. e como eu gostaria que tivesse... e como eu gostaria de tê-lo aqui comigo agora, conversando uma bobagem à toa e me tirando um riso fácil. é impossível. nossos horizontes são distintos e nessa distância já nos perdemos. e procurar pelo que? e correr para onde? e se esconder para que? todo esse sofrimento contido só me mostra o quanto sou fraca. ser forte não é fingir que está bem, mas olhar para a ferida, que sangra e dói, para depois curá-la. só que eu insisto no processo inverso e quando vejo, a ferida está inflamada, porque não tratei dela, apenas ignorei aquele incômodo que sentia, pensando que meus anticorpos seriam capazes de lutar contra aquela doença. mas não, eu estava enganada. e agora a ferida dói mais que nunca, porque quanto  mais o tempo o empurra pra longe de mim, mais a ferida aumenta. e por mais que eu procure remédio, em todas as partes e em todos os bares, você, que já foi meu bálsamo, está longe, tão longe, que não posso nem mais enxergar aqueles olhos miúdos, que já me foram tão familiares. e onde está você agora, meu anjo, que não me vê chorando?! e quantas foram as vezes que eu fechei meus olhos, em oração, fazendo esta pergunta, que eu sempre soube a resposta, mas esperava um milagre, te trazendo verdadeiramente pra mim, só pra mim. e quando lembro de você não é pelo retrato, nem pelo poema, nem pela cor, só por uma dor irremediável, que nem a maior das bebedeiras me faz esquecer. e quando eu saio, nas ruas, ando com a cabeça abaixada para não vê-lo num rosto que me traga a mínima lembrança da sua feição, porque te olhar é tudo que mais quero e não posso. e se, por ventura, isso me fosse possível, olhando em seus olhos, eu lhe faria apenas uma pergunta: você, mesmo distante, ainda me ama? porque, confesso, eu o amo com o melhor de mim, que ainda é pouco pra você.
 

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

ai, a liberdade...

cheguei à uma conclusão: como é bom ser livre!

"liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta, que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda" - cl

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

se eu só soubesse escrever sobre mim, o que eu escreveria?

e se eu só soubesse escrever sobre mim e se eu só soubesse escrever sobre o que sinto, estaria agora escrevendo sobre você e sobre o medo que tenho de machucá-lo. escreveria a respeito da maneira surpreendente como você me cativou. escreveria sobre minha vontade de ficar sozinha e terminar, por fim, a quarta fase do luto. escreveria sobre estar solteira, sobre sair com amigos e desconhecidos. depois, escreveria como em tão pouco tempo você tem se tornado especial para mim e, então, escreveria sobre como gostaria de cuidar de você e fazê-lo sorrir. depois, na minha inconstância, eu escreveria sobre minha hesitação, sobre minhas dúvidas e questões. somente mais tarde, escreveria sobre as coisas boas e sobre nós.

mas como eu não escrevo apenas sobre mim, quero contar a história de uma garota que se chama Ana (adoro colocar meu nome em meus próprios personagens!) que pensou que nunca mais haveria "nós" e que desejava, profundamente, permanecer como estava, inerte. só que naqueles dias safados, um segundo antes do pré-dormir, lembrou-se dele e perceberá que já saíra do lugar, em direção a ele. diferente das outras vezes, cheia de medos e hesitações, porém, pensando que aquilo tudo pode dar certo. então, resolveu fazer um figas bem grande e bem apertado para continuar a caminhar.

[essa história continua...]

Folhetim

E essa era eu...




Se acaso me quiseres,
Sou dessas mulheres
Que só dizem "sim!",
Por uma coisa à toa,
Uma noitada boa,
Um cinema, um botequim.
E, se tiveres renda
Aceito uma prenda,
Qualquer coisa assim,
Como uma pedra falsa,
Um sonho de valsa
Ou um corte de cetim.
E eu te farei as vontades.
Direi meias verdades
Sempre à meia luz.
E te farei, vaidoso, supor
Que é o maior e que me possuis.
Mas na manhã seguinte
Não conta até vinte:
Te afasta de mim,
Pois já não vales nada,
És página virada,
Descartada do meu folhetim.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

quatro estágios do luto

*essa não é uma história real.ok?!

e hoje, pela primeira vez, eu resolvi escrever. sem metáforas, sem rodeios, sem poesia. escrever sobre aquele grito contido, sobre minha vida no escuro. e hoje, também, pela primeira vez, eu quero olhar a ferida, que não sangra, mas que há pouco tempo ainda doía.

se você me perguntasse o que não gosto em mim, eu diria, sem hesitação, que é a minha mania de fugir. todos os dias, quando eu me olho no espelho, repito para mim mesma: "tudo está da melhor maneira possível". tomo uma xícara de café e vou trabalhar. e evito, ao máximo, deixar alguma lamúria escapar, afinal, "esse é o melhor dos mundos possíveis". e é assim que os dias vão passando para mim. e foi numa tentativa de fuga que eu encontrei o que jamais quis, um novo namorado. antes dele, um relacionamento frustrado. e no senso comum que gritava na minha cabeça, dizendo que só se esquece um amor com outro, e na minha ânsia de não ficar sozinha, eu me joguei. e era pra ser uma brincadeira apenas. eu não queria nada. só me divertir. sair com alguém. ou qualquer outra bobeira. e quando eu percebi que as coisas estavam tomando um rumo que eu não queria, fugi novamente. mas aí, confesso, já era tarde. e pulei de ponta no esgoto. esse novo menino era completamente o meu oposto. no começo eu achava isso bastante charmoso, não posso negar. mas com o passar do tempo pude perceber o quanto é difícil nadar na sujeira. 
desde o começo eu soube que ele era viciado. todos temos vícios. uns diferentes dos outros. e pensei, em minha ingenuidade e ignorância, que eu poderia ajudá-lo. e no meu otimismo desenfreado pensei: "todos podem mudar, se quiserem". eu só tinha esquecido da parte do "se quiserem". mas mesmo assim, eu fechava os olhos, fingia que nada daquilo estava acontecendo e seguida em frente.
no início, a omissão. precisava mentir para as pessoas que mais amo, meu pais, sobre ele. não queria que soubessem que eu estava com um viciado e que eu me sentia insegura na companhia dele, pensando que a qualquer momento algo poderia me acontecer em decorrência de estar com ele. eu, sempre de figas, esperava ansiosa por sua efetiva recuperação, para aí, então, poder, finalmente, contar aos meus pais. mas foram tantas recaídas, tantas lágrimas de computadores trocados na boca, tantas lágrimas de humilhação pública, que não aguentei. dia após dia eu ligava para minha mãe dizendo que estava cansada, cansada, cansada, mas ela não entendia do que eu falava, até o dia em que resolvi contar o que estava acontecendo. e a pior coisa que minha mãe já fez por mim foi me incentivar a ficar com ele, por ter vivido situação semelhante com meu pai, que há 19 anos está abstêmico de álcool. e o meu pai, mesmo sendo, de maneira diferente, mas também, um viciado já sabia que aquilo tudo não daria certo. ele sempre soube como essas coisas funcionam. diferente de mim e da minha mãe que estamos do lado de cá, ele sempre soube que se não houver, de fato, empenho pessoal, ninguém livra-se de vícios. e o pior de toda essa situação era saber que ele, sempre nervoso e ansioso, assim como eu, perdia noites de sono com cuidado da filha na companhia de alguém que, à mínima abstinência, poderia se tornar alguém perigoso.
mas o que eu quero escrever, verdadeiramente, não se trata de como as coisas começaram, eu quero dizer como tudo, definitivamente, acabou. depois de eu ter me exposto para a minha família, amigos e, pior, para desconhecidos, dado grana, feito o máximo de mim, muitas vezes forçosamente, para tentar manter algo que não existia além das minhas expectativas, acabou. o começo do fim foi desde o começo, na verdade. as recaídas constantes foram me desgastando, até o dia em que fui até a casa dele decidida a deixar de viver em função dele e seguir minha vida, em me colocar em primeiro plano. quando eu cheguei lá, ele já sabia exatamente o que iria acontecer: eu iria terminar com ele. antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele falou que gostaria de se tratar, num internamento. e aí, mais uma vez, eu cedi. meus dias a partir de então se concentraram na procura de clínicas cobertas pelo plano de saúde dele, ligar (e a conta do meu celular veio um absurdo de cara!), mandar e-mail para professores pedindo pelo amor de deus para não reprová-lo por faltas, rezando para tudo dar certo e ele se endireitar, fazendo malas e me despedindo dele. e de fato, eu ainda não sabia, mas era uma despedida. seu internamento foi em curitiba, no hospital psiquiátrico bom retiro. e ele, com isso, ganhou tempo: mais vinte e seis dias. e nesse breve período de internamento eu me dediquei como jamais havia feito em toda a vida. eu fecho os olhos e lembro dos vinte e seis dias mais altruístas da minha vida, onde tudo eu considerava como um investimento no futuro, em que eu e ele ficaríamos juntos e bem felizes. durante todo esse período eu me afundei em dívidas. sou estagiária, você sabe. eu ganho pouco. só os deputados ganham bem. os bolsistas do governo federal ganham uma ninharia. fui cinco vezes de ponta grossa à curitiba, para visitá-lo. a primeira vez de ônibus e outras quatro de moto, arriscando minha vida na rodovia, em meio a neblina, e teve um dia que peguei até chuva na estrada, tudo para estar com ele, nas reuniões familiares, nos horários de visita e nas conversas com a psiquiatra. e ela não sabe, mas fez tudo errado. como ele já havia sido internado nesta mesma clínica e se tratado com essa mesma psiquiatra no internamento anterior, há uns dois ou três anos, ela disse perceber nele uma grande mudança e que ele parecia disposto. isso me fez sonhar. estava decidido. terminado o internamento, iríamos morar juntos. imaginem vocês, eu iria, praticamente, me casar. eu nunca imaginei que um dia isso iria acontecer comigo, mas estava. arrumei as malas. iríamos passar um mês juntos, uma espécie de teste, para então, se tudo desse certo, nos casarmos de vez, no papel e tudo. eu não estava nenhum pouco certa do que estava fazendo, só pensei que era o melhor a se fazer naquele momento. e fiz. nada para mim. tudo para ele e sua efetiva recuperação. mas tudo tava estranho. era como se ele fosse um desconhecido. comentei até com uma amiga do trabalho, que disse ser normal por termos passado vários dias distantes. e as promessas que ele faziam, por mais que eu quisesse acreditar, já me pareciam vazias. e, infelizmente, eram. quando passamos a morar juntos já fazia pouco mais de um ano que estávamos juntos, o que me fez pensar que eu o conhecia. mas ele era, realmente, o meu oposto, era imprevisível. aliás, só tinha uma coisa em que ele era previsível: quando estava confabulando para usar droga. e no sexto dia pós clínica, caindo o céu em forma de chuva, ele estava com as mãos inquietas. era o primeiro sinal. eu, confesso, fiquei desconfiada, mas eu senti que deveria dar um voto de confiança. me enganei. tudo conspirou a seu favor: estávamos com o carro emprestado da mãe dele para me deixar na universidade em decorrência da chuva e ele estava com um dinheirinho na mão. pronto. tudo conspirando a favor de uma pedrinha de craque! e quando ele não voltou no horário combinado para me buscar, eu já sabia exatamente o que estava acontecendo: era o fim.
dessa vez eu não esperei ele voltar da favela. para mim, aquilo foi o estopim de algo que estava para explodir há muito tempo. pedi a um amigo que me acompanhasse para buscar as minhas coisas. peguei tudo: cartas que eu havia escrito desde o começo do meu namoro, cartas que pedi para meu pai e minha mãe escreverem para ele, desejando força, quando do seu internamento, presentes e tudo o mais que pudesse fazê-lo esquecer de mim. eu, que tenho mania de fugir e esconder, acho que as coisas são mais fáceis quando as pessoas esquecem de mim por primeiro. juntei todas as minhas tralhas. apática. sem lágrimas, sem lamentações. eu estava certa de que aquilo seria o melhor para mim. era dia primeiro de julho, sexta-feira, e o céu chorava, diferente dos meus olhos que estavam secos. e voltei para a minha casa. e coloquei tudo que me fazia lembrá-lo no lixo, com exceção de um perfume caro que ele me deu no dia dos namorados, que hoje uso para sair com outras pessoas. eu decidi esquecer. e o que me doía não era o que estava acabado, mas era o que estava por começar. recomeçar é sempre tão dolorido... e sabe o que mais doeu? foi receber uma ligação dele no dia seguinte, quando chegou da drogadição, me avisando que tinha ido pagar uma dívida. que dívida? eu e a irmã dele já não tínhamos descido até a favela com ele, fazendo nossa exposição, para ele pagar o que devia? aquilo era demais para mim. desliguei o telefone e liguei para um amigo. sabe aquelas pessoas que quando você ouve a voz, você se sente como se estivesse envolvido por um sentimento bom? foi aí, quase vinte e quatro horas depois que derramei a primeira lágrima. já fazia tanto tempo que a dor vinha sendo a mesma, que já estava praticamente anestesiada. e resolvi ir até a casa desse amigo para conversar, que dizia que eu deveria dar ao rapaz outra nova chance. no caminho, com a pista ainda molhada, caí um tombo de moto. circunstância bem besta. o carro da frente freou de repente e eu, para não colidir, freei também. como o asfalto estava molhado, a moto deslizou e eu caí. não me machuquei, nem nada, mas foi só naquele momento que eu comecei a entender o que estava acontecendo. era a ficha caindo... sentei no meio fio. e chorei como criança. chorei lágrimas que eu já sabia que cairiam, mas que eu fazia força para evitar, tentando ajudá-lo. eu ainda não tinha tomado uma posição. não sabia bem ao certo o que fazer. ao lado desse meu amigo, liguei para a casa. tudo o que mais queremos é estar perto de quem mais amamos quando estamos tristes. e como eu queria colo de pai e de mãe. e ali, chorando copiosamente, eu ouvi meu pai dizer coisas que jamais disse e me dando forças para dar aquele passo que eu deveria ter dado meses atrás. a conversa foi longa. e dolorida. e muito verdadeira. falávamos do coração. ele querendo o meu melhor, sempre querendo  meu melhor. e eu buscando o meu melhor, tomei a derradeira decisão. era a hora. era o fim. e aquele meu amigo que inicialmente disse que eu deveria refletir melhor sobre a possibilidade de permanecer junto do rapaz, após ouvir o diálogo com meu pai, reconsiderou e disse que o término seria a atitude mais acertada.
cheguei em casa, com todas as lágrimas possíveis já choradas, peguei o telefone e liguei. ele atendeu e se desculpou, dizendo que nunca mais iria me fazer sofrer. eu disse apenas: "te liguei pra te dar tchau!" e disse adeus. e surpreendentemente eu senti alívio. foi a melhor coisa que eu fiz nos últimos tempos. a partir daquele momento eu não precisaria mais me preocupar se o namorado tava na favela, se iria chegar vivo em casa ou ter medo de sair em companhia dele na rua. estava acabado e eu era livre. eu podia sorrir um sorriso leve. 
e depois disso, voltei ao teatro. o fingimento é o que melhor sei fazer. acordei no dia seguinte como se nada tivesse acontecido. eu ainda tinha mais uma semana de aula e de trabalho. não podia transparecer o que estava havendo. aquilo tudo era um problema meu, só meu e que eu havia escolhido e, finalmente, havia deixado para trás. e como os primeiros dias foram pesados. só eu sei o esforço que foi sorrir. e tudo que eu mais queria era ir para casa e não saber através dos amigos que ele ligou, que estava preocupado comigo ou qualquer coisa assim. pedi, inclusive, para que esses mesmos amigos mentissem que eu tinha sido dispensada do trampo e tinha viajado, só para não correr o risco dele aparecer no meu trabalho, sem avisar, e me causar grande constrangimento. e os primeiros dias passaram. a primeira fase do luto, eu diria, é a do arrependimento. eu me arrependi, profundamente, do dia vinte e dois de março de dois mil e dez, quando o conheci. depois me arrependi de tê-lo, muitas vezes, o colocado em primeiro lugar. e me arrependi de tantas outras coisas, de tanta vida de desperdicei... 
quando, finalmente, entrei em férias, senti o calor afetuoso de pai e de mãe, eu, pela primeira vez, me senti bem. e durante todo o tempo em que estive perto deles era como se tudo para mim fosse como se ele não existisse. conheci até novas pessoas, aleatórias, mas saí com elas e me diverti bastante. a segunda fase do luto é a negação. dizia para mim mesma: eu sou melhor sem ele, sou jovem e deve haver coisa muito melhor reservada para mim.
mas as férias terminaram... e foi, então, que eu me dei conta de como havia passado pouco tempo desde o término e de como os dias estavam passando lentamente. a terceira fase do luto é a saudade. é quando você se dá conta de que o que passou não voltará mais, e lamenta. o meu lamento, entretanto, foi um silêncio que não me pertencia. um estado apático. sem lágrimas, sem expressões faciais. nada. só pensamentos desconexos, que ao longo dos dias foram sendo substituídos pelas coisas boas que passaram a acontecer  em minha vida. uma mensagem de texto, via celular, com má ortografia, escrita pelo pai ou aquele convite inesperado para ir ao cinema com o colega de faculdade... é nesse momento que ocorre a quarta e derradeira fase do luto: o recomeço.
e recomeçar tem sido dolorido, eu confesso. mas a cada dia longe dele é um dia a mais perto de mim mesma, da minha família, meus amigos e de novas oportunidades de ser feliz. e, confesso, já tenho sido.


e é com esse desabafo que inicio, oficialmente, a quarta fase do luto. estou recomeçando e dessa vez é diferente. não vou mais fugir, nem fingir. acabo de assumir publicamente o que vinha sentido, acabo de me expor mais uma vez. agora não por ele, mas por mim. eu precisava compartilhar. e gritar tudo que me atrapalhava a voz. e, confesso, estou me sentindo aliviada. até consigo respirar com maior facilidade, digo, felicidade. 

terça-feira, 9 de agosto de 2011

você pode ir na janela.

mas é que ele era assim, o meu oposto, e tão diferente de mim, que me fez mudar e depois mudou de mim.