domingo, 31 de julho de 2011

um pelo outro

Agora, e novamente, as minhas mãos estão vazias. E eu tentei. Da maneira mais errada. Tentei, passando o tempo todo procurado-o nele. Nos gestos, nas palavras, nos olhos pequenos ou nas vistas que enxergavam além do meu horizonte, assim como os seus. E quando eu buscava seu sangue na veia alheia, e quando eu buscava o seu cheiro no corpo alheio, e quando eu buscava seus dentes tortos num sorriso perfeito, percebia que todo o sacrifício era vão. E não adiantava eu mostrar a ele suas músicas favoritas ou aquele clipe do Portishead que sempre assistíamos... Você não estava nele. Só em mim. E permanece. Assim, calado. E, juntos, somos bons artistas. Não deixamos ninguém perceber o que se passa. Não deixamos ninguém ouvir o que desejamos. E mesmo que ele estivesse perto, muito perto de mim, não conseguia ouvir meus gritos que chamavam por um nome, que não era o dele. E agora, com o corpo ainda trêmulo, penso em você. Nunca foi o melhor, mas tornava-se assim pelo sentimento que carreguei por ti. E ele, que faz o melhor de si para mim, eu substituiria facilmente por outro alguém, desde que fosse você. E quando ele me olha, perguntando, inseguro, sobre o que eu estaria pensando, desvio o olhar para que ele não veja algo que só brilha à mínima lembrança de um bom momento contigo. E mesmo eu sabendo que jamais encontrarei você numa esquina qualquer, num dia qualquer, em alguém qualquer, eu continuo tentando, pois sei que, mais cedo ou mais tarde, passarei a procurar um alguém, que não reconheço mais, em você mesmo. 

quinta-feira, 28 de julho de 2011

arrumação de quarto.

Estou aproveitando os últimos dias de férias para organizar minha casa. Ontem dediquei boa parte do meu dia organizando minha estante e depois em um telefonema para uma velha amiga. Hoje resolvi mudar a disposição dos móveis do meu quarto. De tempos em tempos eu sempre faço isso, para dar novos ares. O que me dá mais trabalho para reposicionar é o guarda-roupas, pois como é pesado, tenho que esvaziá-lo. Aproveitei o ensejo da nova organização do quarto para também arrumar o armário, que, confesso, também estava precisando.
Primeiro eu troquei a cama de lugar. Antes ela ficava com a lateral abaixo da janela. Agora é a cabeceira que fica sob ela. E o guarda-roupa eu simplesmente coloquei na parede oposta a qual estava. 
Somente quando a gente tira tudo para fora do armário é que percebe a quantidade de coisas que tem. Resolvi, então, pegar uma sacola para guardar ali algumas roupas que doarei mais tarde para o bazar de uma igreja aqui perto de minha casa. A primeira peça de roupa foi uma que ganhei, já usada, de minha tinha. A blusa deveria ter uns 30 anos. Ou mais. E o Felipe, um amigo meu, sempre dizia que ela era ridícula. Resolvi doar também um antigo tênis de ginástica, afinal, ando tão sedentária que nem preciso mais dele. 
Aos poucos fui dobrando as roupas e as colocando novamente no guarda-roupas e as que eu não queria mais, na sacola. E no meio daquelas roupas todas jogadas ao chão eu identifiquei uma de cor lilás. Era uma camiseta. E não era minha. E tinha o cheiro dele. E as lembranças, nem sempre boas, mas trazia lembranças... Peguei aquela camiseta, dobrei e coloquei na sacola de doações. Para mim nada daquilo me servia mais. Quem sabe para um outro alguém. 
Algum tempo depois tudo já estava organizado. Peguei aquela sacola de roupas, amarrei bem firme para nada escapar e decidi que amanhã bem cedo eu vou doar o que não quero mais pra mim.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

descoberta do dia:

Nossa, somente hoje me dei conta de quanto tempo não nos falávamos! E hoje, durante nossa conversa, percebi que não te amo mais. E desejo, com o coração, que você seja, realmente, muito feliz.

terça-feira, 26 de julho de 2011

ponte aérea Brasil x Espanha

Hoje, no meu último dia de férias, revolvi dar uma geral aqui em casa. Aproveitei o tempo livre para colocar tudo em ordem, pois, quando a rotina voltar, não terei tanto tempo assim para me dedicar à organização do lar. Normalmente eu teria começado pela louça, que, para mim, é a pior parte, mas olhei para a estante da sala, que fazia anos que eu não mexia, notei a bagunça de papéis, livros e objetos que ali estavam que, por força maior, tive que iniciar a limpação de casa separando o que dali prestava, o que deveria ser reciclado ou, por ventura, ser colocado em outro lugar. 
Tirei tudo das prateleiras e coloquei no chão, achei que assim seria mais fácil. Comecei organizando os textos da universidade por disciplina e colocando em caixas arquivos específicas de acordo com o ano letivo de cada matéria. Apenas com essa atitude que, confesso, tomou tempo, as coisas começaram a ficar menos bagunçadas.  Então, foi a vez dos livros. Organizei os 237 livros por ordem alfabética do sobrenome do autor e os coloquei nas duas prateleira mais altas. O que sobrou eram papéis menores, alguns deles dobrados em origamis, e eu teria que verificar folha por folha para não jogar nada importante fora, coisa que sempre acontece. O primeiro que eu peguei estava dobrado em formato de coração. Lembro que quem tinha mania de fazer dobraduras era a Ana. Nós estudamos juntas durante muito tempo, nos víamos todos os dias, mas mesmo assim fazíamos questão de escrever. Nada de e-mail, gostávamos mesmo de tinta no papel. E ela sempre me escrevia e dobrava os papéis em formato de coração. Abri cuidadosamente, para não danificar o papel, que continha uma poesia, escrita por ela, a respeito da amizade. Depois disso, olhei atentamente para o chão e vi mais uma porção de folhas em formato de coração. Decidi que precisaria de uma caixa para guardar recordações tão preciosas. Além disso, percebi que preciso mesmo de uma caixa dessas, pois minha memória tem ficado cada dia mais terrível... Enfim, guardei o primeiro coração e fui lendo os demais, lembrando de como éramos próximas. Agora nos escrevemos esporadicamente, no máximo uma vez por ano, contando sobre coisas triviais do cotidiano, mas tudo parece tão distante. E olha que nem moramos tão longe assim, são menos de 200km que parecem que milhas e milhas nos afastam. De toda forma, após a leitura de diversas cartas da Ana, uma em especial me chamou a atenção, um momento da vida dela que eu presenciei:

Eu lembro que era um domingo e combinamos com o pessoal de tomar um sorvete e andar de patins. E foi nessa tarde adorável com os amigos que ela o conheceu e, segundo sua descrição foi algo mágico. Na carta ela não chegou a descrever como se encontraram após aquele dia. Acho que na memória dela tudo estava tão claro, que esqueceu de me contar desse detalhe. Contou apenas o que julgou mais interessante: o beijo na esquina de sua casa, Rua Caramuru. Ela subiu no meio fio, em uma brincadeira, para tentar ficar mais próxima da altura dele e se desequilibrou, quando caiu estava muito próxima a ele, que a beijou. Na carta Ana descreve vários momentos deles juntos, demonstrando sempre estar apaixonada. Durante a leitura da carta inteira estive confiante de que tudo daria certo para minha amiga, que tanto já tinha errado nas coisas do coração. No entanto, a má notícia: ela o conheceu quando ele já estava com a passagem comprada para se mudar do Brasil. E ele foi. E ela, que na época, era muito jovem, tinha apenas 15 anos, chorou, porque queria que aquele amorzinho de verão perdurasse inverno a dentro.
E depois de ler essa carta, eu que também o conheci, quis saber como eles estavam, principalmente ele, do qual eu nunca mais tinha ouvido falar.
Peguei o telefone e resolvi ligar para a Ana, saber se ela tinha alguma notícia dele. Eu quase nunca ligava para a Ana. Com o passar do tempo muitas amizades tornam-se superficiais e a nossa era assim, mas, não sei porquê, eu queria muito saber como ele estava.
Disquei.
Chamou uma vez e caiu na caixa postal. 
Definitivamente, não gosto quando as pessoas desligam a ligação quando veem meu nome no identificador de chamadas.
Mais ou menos meia hora mais tarde, a Ana retornou minha ligação:
- Alô?
- Fala, gata! 
- Oi, Ana. Tudo bem?
- Tudo sim e você?
- Beleza. 
- Me diga uma coisa: alguma novidade? 
- Nada de novo. E por aí?
- Nada de novo também. Tudo na mesma rotina esmagadora de sempre.
É claro que haviam novidades. Eu sei que haviam. Ela tinha novidades para me contar, mas não queria. Eu mesma tinha uma porção delas: minha mãe se casou novamente, eu troquei de carro, voltei às aulas de inglês... Mas ela, apesar de, muitas vezes, forçarmos uma amizade, me parecia uma estranha. Mas eu tinha que fingir que estava interessada nela, para aí, então, poder perguntar dele.
Fizeram-se sete segunfos de um silêncio constrangedor, que Ana, muito direta, quebrou:
- Tá precisando de alguma coisa?
Já que ela foi direta, resolvi também ser:
- Tem visto o Di?
- Você já soube?
- Já soube de que? 
- Não sabe mesmo ou está de fingimento?
- Não, não sei. É que agora pouco eu estava organizando umas coisas aqui em casa e comecei a reler umas cartas suas e uma delas, escrita em 2006,  falava sobre vocês e que ele tinha ido morar na Europa. Fiquei apenas curiosa para saber sobre ele e pensei que, por ventura, você saberia de algo e, pelo que vejo, sabe.
- Pois é, a parte que a minha história cruza com a dele eu nunca relatei nas cartas, porque ele sempre vinha, mas voltava para a Espanha.
- Entendo. Mas, se estiver tudo bem para você, me conte, por favor.
- Então, do início da história você já sabe e acompanhou muito bem a minha empolgação inicial e as lágrimas do final, quando ele foi pra Madri. Com ele morando lá, conversamos umas duas vezes por telefone e todas as outras pelo messenger. Na metade pro final de 2009 ele veio visitar a família e combinamos de sair juntos. Conversamos muito e fomos ao show da Blindagem.
- O Ivo estava vivo ainda, né?!
- Tava sim. Foi o último show que vi com ele vivo. Enfim, nesse show maldito todas as pessoas do mundo queriam conversar com ele, o que é natural, afinal, fazia muito tempo que ele não vinha para cá e as pessoas, assim como eu, sentiam falta dele. O problema, na verdade, não foi esse, foi eu ter encontrado, pela primeira vez, o meu ex namorado com a sua esposa. Num ato infantil, quis demonstrar que estava super feliz e talz e acabei tomando todas e passando vergonha. Nesse dia, consegui fazer com que ele esquecesse a menininha por quem, talvez, ele tenha se apaixonado.
Passado alguns meses e conversas por msn, ele veio nos visitar outra vez. Era fevereiro de 2010. Eu tinha acabado de sofrer aquele acidente de moto, que te contei, e estava podre. Não pude dar a atenção devida a ele, por não conseguir me enxergar enquanto uma mulher desejável. Minha auto-estima não estava tão alta assim... Logo, coloquei, novamente, tudo a perder.
Teve uma vez também que foi super bacana. Não lembro direito o ano. Sei que era em dezembro, porque minha prima que mora em Curitiba saiu conosco e ela só vem pra cá em véspera de natal. Nós fomos ao club juntos e foi tão bom. Em todas as circunstâncias, sempre gostei dele, não apenas dos beijos, mas da companhia dele, que me faz muito bem.
- Aham, mas e agora?! Ele tá morando aqui ou lá, em Madri?
- Então, espere aí que já estou chegando no final da história! Sabe por que lá no começo da nossa conversa eu perguntei se você já sabia, lembra? Então, sabe quem chegou, em visita ao Brasil, esta semana?!
- Ele? E aí?!
- Saímos esse dias atrás.
- E como foi?!
- Eu o pedi em casamento?
- Como assim?! Tá louca?! Você está super nova e nem terminou a graduação. Você não tá falando sério, está?!
- Estou sim. Eu expliquei pra ele porque ainda vamos nos casar: há mais de 05 anos compartilhamos sentimentos um pelo outro e hoje, quando nos beijamos, eu senti carinho, amor, ternura e vontade de cuidar e ser cuidada.
- E ele?!
- Não disse sim. Lógico! Soou como brincadeira, mas acho que ele sempre irá lembrar daquela noite: eu estava dirigindo seu carro e o levei para o meu local favorito na cidade, é um local onde dá para ver a cidade acordada, com todas as suas luzes acesas, no som do carro tocavam músicas da Adele e do Death Cab For Cutie e tudo foi muito bonito. Eu falei assim: "volta pro Brasil e casa comigo?!". Ele ficou quieto, o que é natural. Aí, acrescentei: "você vem para o Brasil, eu termino a graduação e podemos voltar para lá, daí eu faço mestrado e doutorado na Espanha!". Ele disse apenas que achou bonitinho e tal, essas coisas que as pessoas dizem para não deixar as outras no vácuo, sabe?!
- Sei sim e você, o que sentiu, o que pensou, o que vai fazer?!
- Eu senti um gostoso no meu coração, porque eu estava ali com o coração, com o amor puro que senti em minha adolescência, pensei: "fiquei meses sem vê-lo, mas está tarde e eu tenho que ir embora!". Estive com ele por pouco mais de uma hora e, tenho certeza, lembrarei várias vezes ainda desse momento. E, infelizmente, não farei nada porque ele só fica quinze dias aqui no Brasil e eu já voltei para Ponta Grossa. 
- É uma pena que ele sempre vá embora quando você passa a gostar dele...
- Não tem problema. Sentir o que senti quando estava em sua companhia me fez entender que, se eu me dispor, ainda posso amar... E, por hora, isso é o que me basta.
- Entendo. Mas me conte?! Tá trabalhando onde?!
- Ai, desculpa. Não posso falar agora, vou entrar no ônibus para ir pra faculdade. Falamos outra hora. Me ligue!
- Tudo bem. Boa aula.
- Beijo, tchau.
- Tchau.

Ao desligar o telefone, entendi uma coisa: eu queria mesmo era saber como ela estava. Cheguei à conclusão que sinto saudade dos meus amigos da infância e adolescência! Quero todos vocês de volta pra mim.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Alguém como você...

Todos podem sair. Todos podem se divertir. Eu, minhas amigas, a garota da loja da esquina. Seus amigos, o pessoal da faculdade. Todos. Menos você, que é meu. Eu quero que o mundo gire, de maneira diferente. Não naquela roda gigante, na qual estávamos. Tantos altos e baixos... E o mundo pode girar. Para mim, minhas amigas, a garota da loja da esquina. Seus amigos, o pessoal da faculdade. Todos. Menos você, que é meu. Gostaria que você ficasse bem aí, onde está. Gostaria que nada mudasse, que ninguém entrasse na sua vida e que você não se apaixonasse por um outro alguém. O meu amor, que um dia já foi altruísta, agora é egoísta e quer todas as coisas para si. E quer você. Mas eu finjo, finjo o tempo todo e penso usar da razão, quando para longe eu corro. Mas meu coração, que grita, fica escondido sob um sorriso que não é meu. Foi algo que eu inventei para me sentir segura. Não quero demonstrar, nunca mais, o que sinto. Isso me torna frágil. Eu não quero que você saiba que ainda o amo. Eu não quero que você saiba que eu saio, me divirto, danço, mas que quando chego em casa é em você que eu penso e no quanto eu gostaria que a nossa vida tivesse sido diferente. Por que a gente não finge que isso não está acontecendo? Eu queria poder fechar meus olhos e estar ali, deitada na nossa cama, olhando para as paredes e pensando em que cor pintá-las. Eu queria estar ao seu lado, todos os dias, para você nunca esquecer de tomar o seu remédio, às 9, às 15 e às 21. Eu queria estar aí, para quando eu acordasse faminta, no meio da madrugada, você se levantasse fazer um lanchinho para mim. Nenhum nescau é tão bom quanto o seu! Eu só queria esta aí, nem que fosse apenas por um minuto, para lembrar o quando já fui feliz. Mas eu não posso. Não posso deixar que os gritos do meu coração, desesperado, sobressaiam aos meus pensamentos racionais, que rogam para me eu me manter afastada de você. E se você realmente quisesse, tudo poderia ser diferente. E eu ainda torço tanto por isso, meu amor...
Apenas feche seus olhos e pense que tudo pode ser melhor. Sonhe. Creia. E seja forte. Mesmo que nunca mais possamos ficar juntos, mesmo que nossos olhares não se cruzem mais, eu quero que você ainda seja muito feliz. Por você, só por você, o meu amor continua altruísta.

________


Someone like you - Adele

Tradução: 

Eu ouvi que você se estabeleceu
Que você encontrou uma garota e você está casado agora
Eu ouvi que seus sonhos se tornaram realidade
Acho que ela lhe deu coisas que não dei a você

Velho amigo
Por que você está tão tímido
Não é como você tivese que se conter
Ou se esconder da luz

Eu odeio a aparecer de repente sem ser convidada
Mas eu não poderia ficar de fora Eu não poderia lutar contra isso
Eu esperava que você ao ver meu rosto se lembrasse
Que para mim não está acabado

Não se preocupe, eu vou encontrar alguém como você
Eu desejo nada menos que o melhor para vocês dois
Não se esqueça de mim, eu imploro, me lembro que você dizia:
Às vezes é duro no amor
Mas às vezes dói até mais
Às vezes perdura no amor
Mas às vezes dói mais ainda, yeah

Você sabe como o tempo voa
Somente ontem foi o tempo das nossas vidas
Nós nascemos e fomos criados numa neblina de recordações
Delimitada pela surpresa dos nossos dias de glória

Eu odeio a aparecer de repente sem ser convidada
Mas eu não poderia ficar de fora Eu não poderia lutar contra isso
Eu esperava que você ao ver meu rosto se lembrasse
Que para mim não está acabado

Não se preocupe, eu vou encontrar alguém como você
Eu desejo nada menos que o melhor para vocês dois
Não se esqueça de mim, eu imploro, me lembro que você dizia:
Às vezes é duro no amor
Mas às vezes dói mais ainda, yeah

Nada se compara, sem preocupações ou cuidados
Lamentações e erros são produtos da memória
Quem poderia saber o gosto amargo que isso teria

Não se preocupe, eu vou encontrar alguém como você
Eu desejo nada menos que o melhor para vocês dois
Não se esqueça de mim, eu imploro, me lembro que você dizia:
Às vezes é duro no amor
Mas às vezes dói mais ainda.

Não se preocupe, eu vou encontrar alguém como você
Eu desejo nada menos que o melhor para você também
Não se esqueça de mim, eu imploro, me lembro que você dizia:
Às vezes é duro no amor
Mas às vezes dói até mais
Às vezes é duro no amor
Mas às vezes dói mais ainda

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Seção nº 23.

- Bom dia, Ana.
- Oi, Dr. Danton.
- Sente aí para conversarmos!
- Claro.
Coloquei minha mochila preta no chão, ao lado da escrivaninha do médico. Sentei, colocando minhas mãos entre as pernas cruzadas, como uma forma de proteção, no entanto, o Danton sempre arranca de mim todas as verdade, sem eu deixar e sem, nem ao menos, eu perceber.
- Tá tudo bem com você?
Sorri aquele meu sorriso amarelo, de praxe, e respondi:
- Tá tudo sim.
Mas o Dr. já me conhece, afinal, já temos nossos encontros semanais há alguns meses.
- Tem certeza? Como foi sua semana?
- Foi a mais terrivelmente maravilhosa e mais maravilhosamente terrível!
- Explique isso melhor. O que aconteceu?
- O problema que me trouxe aqui pela primeira vez e pelas tantas outras vezes seguidas que estive aqui.
- Não precisa nem discorrer, até já sei o que aconteceu. Mas eu te falei, Ana, esse problema independe de você e é, realmente, muito complicado superá-lo. Eu já atendi vários pacientes com o mesmo problema e sei como as coisas são difíceis.
- Eu sei. - Disse com o olhar baixo. - Eu sei de tudo isso. Você, meus pais, meus amigos, todo o mundo me alertou, mas eu queria correr o risco. Eu só queria fazer o melhor, pra ele e para mim. 
- Ana, eu conversei com você sobre isso... O teu amor não é suficiente para os dois. Ele tem que querer e, se ele não quer, não há nada que você possa fazer. Aliás, o que você fará agora?
- Se eu ouvisse os gritos desesperados do meu coração me pedindo para voltar, eu já estaria lá, ao lado dele, com mais um ou dois meses em segurança. Só que agora chega! Não posso mais fazer isso comigo. Não posso viver de promessas e me alimentando de um futuro que não existe além das minhas expectativas.
- Então vocês terminaram?
- Foi o que aconteceu. Parece coisa de gente covarde o que direi, mas, como eu não queria vê-lo, liguei dizendo adeus. Pedi também para ele não me procurar mais, nunca mais, porque eu quero reconstruir minha vida.
- E como você está se sentindo?
- É pra eu falar o que eu quero que as pessoas pensem ou o que realmente estou sentindo?
Ele nem se deu o trabalho de responder. Ele sabe que eu sei que ali, no consultório, eu não preciso me esconder. Me olhou com cara de "claro que é pra falar o que sente, sua loque!". É evidente que ele não verbalizou, mas nem precisava, era óbvio.
- É como se eu mentisse o tempo todo. Eu sorrio, as pessoas veem e tudo parece estar bem, só que não está. Não está nada bem. E dói. O tempo todo. E não é como das outras vezes que terminamos, dói tanto porque dessa vez é definitivo. Não tem volta. E quando ele me liga e eu desligo o celular dói mais ainda. Prometemos sempre falar a verdade um para o outro, por mais dolorida que ela fosse, e eu nem falar falo mais. Eu corro pra longe, me escondo, minto. 
O Danton apenas me olhava, com aquele seu olhar analítico, que procurar encontrar em qualquer palavra, em qualquer hesitação uma brecha para entender o que sinto. Nessa hora, já em prantos, acrescentei:
- Como eu disse, dessa vez parece doer mais porque eu quero, do fundo do meu coração, que seja definitivo. Não quero mais escolher me machucar. Não quero mais decepcionar meus pais. Eles sempre estão ao meu lado, apoiando em minhas decisões, mas ele também já não suportam mais me ver assim, sempre triste sem ter certeza sobre o amanhã. E ao mesmo tempo que eu quero fazer isso, fazer o que é o mais acertado para mim, e nas palavras do meu próprio pai, "chorar agora para não chorar depois", eu penso nele o tempo todo. Que eu o amo não é novidade pra ninguém e é por isso que ainda me preocupo e tenho medo que algo de ruim aconteça a ele. E o pior é que eu não consigo sentir raiva dele. Talvez, se eu sentisse, era mais fácil. Mas a única coisa que sinto é raiva de mim mesma por gostar de ser humilhada, machucada e maltratada. Pode doer, eu posso morrer de chorar, posso ficar doente - como fiquei da última vez em que terminamos -, mas eu não quero mais ter que buscá-lo no esgoto. Eu não mereço isso. 
- Todas as dores passam, você sabe. Aposto que não é a primeira vez que você rompe um relacionamento e, como você é jovem, duvido muito que seja a última.
- Meu pai falou comigo sobre isso. Ele me ligou. Fiquei até surpresa. Normalmente ele só me liga para dar alguma bronca, isso quando me liga. Mas ele tem sido muito amável comigo. Ele falou pra eu não me preocupar, que ele está do meu lado e que me apoia totalmente nesta decisão. Ele é dependente químico também, e já faz 19 anos que está sóbrio, e ele me falou que se a pessoa não quiser, não adianta. E eu sei disso. Olha quantas vezes tentamos em vão! Meu pai também falou que eu sou nova, inteligente e bonita e que em breve eu encontro outra pessoa que irá me merecer de verdade. Eu sei disso tudo, sempre soube, mas ouvindo da boca do meu pai, foi como um tapa na cara. É a verdade, que sempre esteve à minha frente e eu apertava bem forte os olhos para não enxergar. Mas agora eu vejo com clareza: eu sou mais feliz sozinha. 
Fiz uma pequena pausa, enxuguei as lágrimas, já mais calma, e prossegui:
- Certa vez meu irmão me disse uma coisa muito sábia, que eu deveria ser feliz sozinha e ser mais feliz ainda com alguém. No meu caso, ele estava sugando a minha luz e me deixando triste. Que doa, não tem problema! Vou aprender a ficar sozinha. Fiquei tanto tempo sem, por que não posso ficar agora? Posso sim e irei. Com o passar dos dias, e com a saudade, tenho ficado cada dia mais triste, mas não demora muito para a cada dia que passar eu ficar feliz novamente. E eu ainda serei muito feliz.
Nesse momento percebo o Dr. Danton observando o relógio. É o sinal de que a terapia está acabando. Faço silêncio esperando alguma resposta dele. Ele apenas me olha, dizendo:
- Ana, acaba de ganhar alta.
- Como assim, Dr.? Agora que terminamos é que precisarei ainda mais do senhor.
- Aí é que você se engana. Com o término desse namoro você acaba com todos os seus problemas psicológicos que, na verdade, nem eram seus, eram problemas alheios que você acabava tomando como seu. Agora que não há mais com o que se preocupar, só com si mesma, não precisa mais da minha ajuda. Só espero que, dessa vez - e pela sua maneira de falar eu percebo -, seja definitivo.
- E será.
- Espero não revê-la nunca mais.
- Sinceramente, eu também. E desculpa qualquer coisa. Eu sei que tinha dias que eu vinha aqui um pouco neurótica, mas agora tudo ficará bem. Obrigada.
- Imagina, Ana! Tem dias que a gente não consegue se controlar, mesmo. E sou eu que agradece. Foi um prazer trabalhar com você. Sorte, muita sorte na sua nova vida.
- Obrigada. Eu vou precisar. Recomeçar é, realmente, muito difícil.


quarta-feira, 6 de julho de 2011

Caio Fernando Abreu falando por mim

“Lá está ela, mais uma vez. 
Não sei, não vou saber, não dá pra entender como ela não se cansa disso. 
Sabe que tudo acontece como um jogo, se é de azar ou de sorte, não dá pra prever. 
Ou melhor, até se pode prever, mas ela dispensa.
Acredito que essa moça, no fundo gosta dessas coisas. 
De se apaixonar, de se jogar num rio onde ela não sabe se consegue nadar. 
Ela não desiste e leva bóias. 
E se ela se afogar, se recupera.
Estranho e que ela já apanhou demais da vida. 
Essa moça tem relacionamentos estranhos, acho que ela está condicionada a ser uma pessoa substituta. 
E quem não é?
A gente sempre acha que é especial na vida de alguém, mas o que te garante que você não está somente servindo pra tapar buracos, servindo de curativo pras feridas antigas?
A moça…ela muito amou, ama, amará, e muito se machuca também. 
Porque amar também é isso, não? 
Dar o seu melhor pra curar outra pessoa de todos os golpes, até que ela fique bem e te deixe pra trás, fraco e sangrando. 
Daí você espera por alguém que venha te curar.
Às vezes esse alguém aparece, outras vezes, não. 
E pra ela? 
Por quem ela espera?
E assim, aos poucos, ela se esquece dos socos, pontapés, golpes baixos que a vida lhe deu, lhe dará.
A moça – que não era Capitu, mas também têm olhos de ressaca – levanta e segue em frente. 
Não por ser forte, e sim pelo contrário… 
Por saber que é fraca o bastante para não conseguir ter ódio no seu coração, na sua alma, na sua essência. 
E ama, sabendo que vai chorar muitas vezes ainda. 
Afinal, foi chorando que ela, você e todos os outros, vieram ao mundo.”

sábado, 2 de julho de 2011

se pra escrever é preciso estar triste,
chorar por um amor que não existe,
acabo de me tornar poeta.