terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Hoje eu encontrei um velho amigo.


Hoje eu encontrei um velho amigo. E, por muito tempo, foi ele quem me incentivou a escrever e já faz alguns anos que eu não escrevia por ele. Por isso, hoje eu escrevo. 

Era minha primeira reunião no emprego novo. Tudo o que eu pensava era em como eu iria impressionar as pessoas, não em como eu iria reencontrá-lo. (É claro que eu já havia imaginado esse reencontro diversas vezes. Até sonhado com ele eu tinha! Mas, confesso, nunca esperei que, realmente, isso viesse, um dia, acontecer. Achava que era coisa da minha cabeça.) No trabalho, eu estava na minha mesa, já no final do expediente, organizando alguns papéis, quando, no meu relógio de pulso - que costumo deixar cinco minutos adiantado, para não perder a hora -, eram seis horas. Eu gosto quando o ponteiro grande do relógio está no doze e o pequeno no seis. É hora de juntar as coisas e ir para casa. Ou tomar um café. Eu tenho o hábito de tomar café após o trabalho. E há duas quadras de onde eu trabalho agora tem uma padaria. O meu primeiro dia tinha sido bom e eu merecia um café. No caminho já havia até escolhido o que iria beber: como foi um bom primeiro dia, eu merecia um café mais elaborado - pensei até em optar por um daqueles com sorvete. Hoje era meu dia: além de ter dado tudo certo no emprego novo, tinha uma vaga de estacionamento bem em frente ao estabelecimento. Digo que foi sorte encontrá-la porque é uma rua bastante movimentada, ainda mais esse horário. Desliguei o som do carro - estava tocando uma música que faz lembrar meu último ex-namorado (Olha Maria, do Chico Buarque). Peguei minha bolsa e fui em direção à porta, guardando a chave do carro. Quando olhei para a porta - só para me certificar se estava entrando no local certo ou sei lá, para ter certeza de que não iria tropeçar na entrada - vi um rosto conhecido. Meu coração bateu mais rápido. Um rosto que há muito tempo eu não via. Meu coração acelerou. Era ele. De novo. Ali. Parado. Dois copos de café na mão. Tentei disfarçar a cara de surpresa (estava mais para felicidade!). Ele percebeu. Não havia como não perceber. Eu sempre fico sem reação próxima dele, mas sorrio. E sorri. E disse oi, de longe, mas minha vontade era abraçá-lo e sentir o cheirinho de amaciante na sua camiseta. Me contive, lógico! Mas talvez o problema seja esse, eu vivo guardando para mim o que verdadeiramente sinto. E guardo por muito tempo. Ele respondeu meu cumprimento e olhou para dentro da padaria, como se estivesse procurando alguém. Eu tinha tantas coisas para dizer à ele, tantas perguntas... Mas é como se a presença dele me calasse, como se o que eu ainda sinto por ele fosse maior do que tudo o que tenho para dizer à ele. E toda vez que eu olhava em seus olhos (eles são verdes, mas tem umas pintinhas cor de caramelo) quase esqueço daquela tarde de sábado em que ele se foi sem despedir-se e, principalmente, o motivo. E agora ele estava ali, na minha frente, e eu poderia aproveitar e dizer o que sinto: que o amor não morreu e que, se prometêssemos fazer tudo certinho dessa vez, que eu estava disposta a começar tudo de novo. Mas eu olhava para ele e meus lábios tremiam sem palavras. Eu não tinha coragem. Já havia passado tanto tempo e tanta coisa havia mudado. Eu não poderia simplesmente chegar e lhe dizer isso. E não disse (atitude bem característica minha). Não disse isso, mas perguntei se estava tudo bem e outras trivialidades, tentado dar continuidade ao assunto. Eu não conseguia falar de amor à ele, mas conversar e ouvir sua voz novamente era, para mim, um prazer ímpar. Eu precisava levar aquela conversa à diante. Perguntei, então, sobre o andamento do mestrado. Enquanto ele me contava sobre como estava concluindo sua dissertação, eu o observava. Olhava atentamente cada detalhe: ele estava com o cabelo aparado (perdi as contas de quantas vezes tive que implorar para ele cortar os cabelos), mais magro e deixou a barba crescer. Acho que o passar do tempo tem feito bem para ele. Talvez para mim também. Talvez. Enquanto eu contava sobre meu novo trabalho, aproveitei para dar uma olhadinha em como ele estava vestido: calçava all star, uma camiseta vermelha sem estampa e uma bermuda jeans azul clarinha. O mesmo jeitinho. Ele não havia mudado nada. E isso era tão bom. Significava que, talvez, os sentimentos também não tivessem mudado. Ao voltar meus olhos aos dele, percebi que outra vez ele olhava para dentro da loja e que, de dentro dela, saía alguém em sua direção. Uma mulher de meia idade, média, loira e de crocs cor-de-rosa. Ela, que segurava uma sacola da padaria com a mão direita, com a esquerda o abraçou pela cintura e lhe deu um beijo. Em seguida, olhou para mim. Então, ele nos apresentou:
- Hoje eu encontrei uma velha amiga: essa é a Ana. Ana, essa é minha esposa.
Não sei dizer se ele falou mais alguma coisa, porque a partir daí eu não ouvi mais nada. Entrei na padaria, sentei no balcão e pedi um café preto, puro e sem açúcar para me ajudar a engolir o que acabara de ouvir, junto com todo aquele sentimento que renascera ao vê-lo outra vez.

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