segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

"Talvez dês esmolas. Mas, de onde as tiras, senão de tuas rapinas cruéis, do sofrimento, das lágrimas, dos suspiros? Se o pobre soubesse de onde vem o teu óbulo, ele o recusaria porque teria a impressão de morder a carne de seus irmão e de sugar o sangue de seu próximo. Ele te diria estas palavras corajosas: não sacies a minha sede com lágrimas de meus irmãos. Não dês ao pobre o pão endurecido com os soluços de meus companheiros de miséria. Devolve a teu semelhante aqui que reclamaste e eu te serei muito grato. De que vale consolar um pobre, se tu o fazes outros cem?"

São Gregório de Missa, (330) Sermão contra os Usuários.

domingo, 30 de janeiro de 2011

sábado, 29 de janeiro de 2011

hoje é o dia do meu noivado.

esse é um texto fictício.ok? ahahah


Hoje é o dia do meu noivado. E eu estou com o telefone nas mãos.
Eu escolhi o mês de setembro porque sempre pensei que as mais belas histórias de amor acontecessem nesse mês. Faz um pouco mais de quatro anos que eu e o Lucas estamos juntos. Nos conhecemos no final do ano de 2006...
Foi no dia da confraternização da empresa onde trabalho. Sabe, né? Toda aquela coisa de amigo secreto, todas as pessoas felizes e aquela baboseira de espírito natalino. Lembro que, no amigo secreto, eu presenteei a Aline, que trabalha na recepção. Comprei para ela um brinco de prata. Ganhei um também, da minha chefe. Não gostei nenhum pouco, porque era cheio de brilhos e penduricalhos, mas usei algumas vezes para agradá-la.
Na saída da confraternização, me deparei com um rapaz super bonito, encostado no carro no Ronaldo, que também trabalha comigo. Alto, moreno, rosto quadrado, sobrancelhas grossas e marcantes e um sorriso lindo. Ah, ele tinha nariz grande, uma coisa que estranhamente gosto.
Da saída da festa até à minha casa eu não parei de pensar nele um segundo sequer. Chegando em casa, a primeira coisa que fiz foi pegar a agenda telefônica para ver o número do Ronaldo. Se o rapaz estava encostado no carro dele, poderiam ser amigos. Liguei.
- Fala, gato. Beleza? É a Ana.
- Oi, Ana. Tudo bem sim e você?
- Tudo ótimo.
Resolvi ir direto ao assunto. Sou direta e gosto de pessoas diretas.
- Você conhece aquele rapaz que estava encostado no seu carro, na saída da confraternização?
- Quem? O Lucas?
- Não sei. Pode ser. Um rapaz moreno, alto, que estava de camiseta verde, calça jeans e all star.
- Ah, o Lucas! Ele perguntou se eu conhecia você.
- Ai, jura?
Nessa hora eu já estava dando pulos de felicidade. Afinal, não é todo o dia que a pessoa que nos interessa também nos acha interessante, não é verdade?
- Quer o telefone dele?
- Não! Tá louco? O que eu vou dizer? “Oi, Lucas, te achei muito gato e quero sair com você?”
- Ué, e por que não?
- Não! Assim eu não quero. Prefiro quando as coisas acontecem naturalmente, mesmo que seja um natural forjado.
- Do que você está falando?
- Você bem que poderia chamar algumas pessoas para sair, aí você o convida, me convida e deixamos acontecer “naturalmente”. Que tal?
- Hum...
- Por favor?!
- Tudo bem, Ana. O que eu não faço por você, menina?
- Obrigadinha! Amanhã pode ser?
- Mas amanhã é domingo. Ninguém sai no domingo!
- Se ele estiver interessado vai topar, não vai?
- Mas, Ana, o Lucas é jaguara!
O Ronaldo riu muito nessa hora. Quase gargalhou. Achei estranho. Ele deveria saber muitas histórias a respeito do tal Lucas.
- Relaxa, Ronaldo, eu sei o que estou fazendo.
- Espero que saiba, disse rindo outra vez.
Eu também. Mas não dava para saber. Eu tinha que arriscar. Fazia muito tempo que eu não sentia aquilo, aquela ansiedade, aquele frio na barriga, aquela vontade de viver.
- Onde e que horas?
- Vamos na cristal tomar um sorvete. Algo bem informal parece promissor!
- Ai, Ana, Só você mesmo. As sete ta bom pra você?
- Você passa me pegar?
- Orra! Além de tudo ainda tem que dar carona?
- Ai, Ronaldo!
- Sua boba, é claro que eu dou!
- Muito obrigada. Se, um dia, a gente casar eu te chamo para padrinho, ta?
- Ok, Ana. Até amanhã.
- Até. Beijo. Tchau.
Desliguei o telefone. Só não dei um milhão de pulos de felicidade porque ainda faltava o Lucas aceitar ir à sorveteria e, mais, gostar de mim.
No dia seguinte, acordei super bem-humorada. Nunca ir trabalhar foi tão prazeroso. Claro, eu iria encontrar com o Ronaldo, que me diria se tava tudo certo para a noite.
Chegando no trabalho, fui tratanto logo de ir atrás do Ronaldo, que fez um maior suspense. Eu odeio gente que faz suspense! Por fim, a resposta: SIM! Eu só não dei um grito porque estava no meu ambiente de trabalho, mas eu fiquei super feliz. A partir daquele momento já comecei a pensar na roupa que eu usaria naquela noite. Como estava fazendo um calor absurdo, pensei num shorts, regata e all star. Nada muito diferente do que eu uso todos os dias, na verdade. De qualquer maneira, é tão bom criar expectativas. O problema é que, às vezes, elas são frustradas. Ainda bem que, dessa vez, não foi meu caso.
Quando o ponteiro chegou no doze e o pequeno no seis saí correndo. Eu tinha apenas uma hora para me arrumar. E eu estava tão empolgada! Cheguei em casa e fui direto para o chuveiro. Já eram seis e vinte. Eu tinha apenas quarenta minutos. E quarenta minutos é pouco quando temos que nos arrumar para impressionar alguém. Shots jeans, blusinha branca, colar de bolinhas, all star de couro. E batom vermelho. Pronto. Não, não! Eu não podia ir de batom vermelho. Era uma sorveteria. Pedia algo mais clean. Tirei o batom. Peguei a bolsa e comecei a esperar o Ronaldo, que chegou vinte minutos atrasado, para o meu desespero. Eu odeio esperar. Ainda mais em ocasiões como esta. Eu teria roído as unhas, se elas já não estivessem roídas. Eu sou muito ansiosa, sabe? Ainda mais às vésperas de um “encontro”.
Quando o Ronaldo chegou, deu uma businadinha de leve. Minha barriga gelou. Desci os dezessete degraus correndo. Entrei no carro, dei um beijo no rosto do Ronaldo e sorri. Nessa hora o Ronaldo se partiu de dar risada e disse:
- Tá bonita a lataria!
Eu não tinha entendido nada. Só depois fui ver que tinha uma manchinha de batom no meu dente. A vida é muito irônica mesmo. Quanto mais queremos impressionar, mais fazemos coisas estranhas.
Quando chegamos à sorveteria, ele já estava lá. Lógico, o Ronaldo estava super atrasado! Estava de camiseta preta, sem estampa, como eu gosto. E eu podia sentir seu perfume, mesmo de longe. Era amadeirado. Eu gosto de perfumes amadeirados.
 O Ronaldo nos apresentou oficialmente:
- Lucas, essa aqui é a Ana, que trabalha comigo lá na empresa. Ana, esse é o Lucas, meu amigo que veio de Lins passar uns dias aqui em Telêmaco.
Minha cara mudou na hora. O quê? Passar uns dias? Só uns dias? Assim não valia a pena. Mentira, valia sim porque ele era uma delícia de homem. Mas eu queria algo mais. Não um amor pra vida toda, mas mais que um sexo ocasional. Eu queria uma paixãozinha que fosse correspondida. Não dizem que um amor faz esquecer outro? Isso era tudo que eu precisava naquele momento.
Demos um beijinho no rosto e nos sentamos.
- Ué, Ronaldo, cadê as outras pessoas?
O maldito do Ronaldo não havia convidado mais ninguém. Na certa contou a verdade ao Lucas sobre meu telefonema desesperado. Tempos depois o Lucas me contou que estava com o Ronaldo quando eu liguei e ouviu toda a conversa pelo celular, que estava no viva-voz. Aí fui entender o porquê de tantas risadas durante o telefonema!
Conversamos sobre trivialidades e, no meio delas, fui descobrindo algumas coisas do bonitão. Vinte e sete anos, nascido e criado na cidade de Lins, São Paulo, formado em administração de empresas e tocava violão. Amei quando soube do violão. Adoro quem mexe com música!
Eu consigo lembrar disso até com certa riqueza de detalhes, mesmo após tanto tempo, mas não consigo lembrar como foi a primeira vez que nos beijamos ou como começamos a namorar. Isso é engraçado, porque eu me lembro bem como foi meu primeiro beijo com o Jorge, a primeira transa e o pedido de namoro ridículo que ele me fez com aquela música dos Ramones, “I wanna be your boyfriend”. Mas com o Lucas eu não lembro de muita coisa. Só sei que logo depois do encontro promovido pelo Ronaldo a gente começou a namorar. E foi um namoro bom. Era perfeito. Eu não tinha do que reclamar. O Lucas é uma boa pessoa, até se mudou definitivamente para Telêmaco por mim. Só o seu sotaque que me irrita quando passamos muito tempo juntos. Mas eu não posso reclamar dele, porque ele faz quase todos os meus gostos. E nunca, nenhum dia sequer, chegou na minha casa sem trazer algo: desde um presente caro, até uma folha de árvore que ele viu e pensou que eu iria gostar. E eu estava apaixonada. Mas, na verdade, isso só durou até, mais ou menos, o terceiro mês. Depois, confesso, foi conveniência. E veja onde isso foi parar? Estamos há mais de quatro anos juntos juntando o período de ficadas e namoro.
Tivemos algumas brigas e rompimentos nesse meio tempo. A mais séria foi quando eu ganhei um violão do meu avô, que é violeiro, e pedi para o Lucas tocar alguma canção para mim. Foi nesse dia que eu descobri que ele havia mentido. Ele não sabia tocar nem “parabéns pra você”! Eu fiquei realmente chateada. Cheguei a expulsá-lo da minha casa e o chamei de imbecil. Nunca foi do meu feitio brigar, ainda mais xingar. Mas, quando não gostamos tanto assim da pessoa, tudo é motivo para brigas. Ficamos três meses separados. Eu senti falta, sabe? Da companhia e das conversas. Dos presentes não, porque ele me mandava uma cesta daquelas com guloseimas e ursinhos toda semana, além das flores e dos cartões pedindo desculpas e dizendo que só havia contado aquela “mentirinha” para me conquistar. E eu sentia muita falta do meu amigo Lucas. Mas acho que só do amigo, do namorado não. Depois dele muito insistir, depois de muito a minha mãe, que o adorava, insistir, depois de muito minhas amigas dizerem que eu não podia deixar um homem bonito, rico e que gostava de mim escapar, reconsiderei. Voltamos. Quer dizer, eu nunca voltei. Na verdade, talvez, eu nunca tenha estado realmente nessa relação. Eu nunca dei cem por centro de mim. Talvez por eu ter feito isso com o Jorge. E era sempre o Jorge. Era sempre nele que eu pensava. Pensava e, em seguida, despensava. Depois dizia a mim mesma: “Tudo está da melhor maneira possível”. E continuava levando minha vidinha.
Depois de dois anos e meio de namoro, o Lucas veio conversar comigo. Disse que tinha algo sério para me dizer, que não poderia adiar e que há dias vinha pensando nisso. Eu, confesso, fiquei com um pouco de medo de ele terminar comigo, mas não por ele, por mim, uma vez que eu não me dou bem com recomeços.
- Olha, Ana, já faz dois anos e meio que a gente ta namorando e eu estava pensando...
Ele meio que engasgou. Aí eu já tinha entendido tudo... Minha barriga gelou, minha mão começou a suar e eu já sabia a resposta antes mesmo dele perguntar.
- ... eu já tenho casa, carro, um emprego bom... Talvez fosse o momento da gente deixar mais sério o nosso relacionamento... Digo, se você quiser, acho que nós poderíamos trocar nossas aliancinhas pratas por aliancinhas douradas... Ainda na mão direita. Só para o relacionamento ficar mais sério, sabe?
Eu não dizia uma palavra. Acho que isso o deixou mais nervoso, por isso não parava de falar. E parecia que a cada palavra que ele dizia, a coisa ficava pior.
- Você sabe que eu amo você. Até me mudei para Telêmaco por você...
Senti, assim que ele pronunciou essa frase, um tom de cobrança, como se eu devesse aquilo à ele. E eu não devia. Eu não pedi para ele se mudar. Também não me interessava se ele tinha casa, carro e vida boa. Eu não pretendia ser uma dondoca ou, pior, uma dona de casa frustrada.
Ele continuou falando. Eu até ouvia a voz dele lá no fundo, mas eu só pensava naquele momento na desculpa que eu teria que dar.
- E então? Você não vai dizer nada? Sim ou não?
Eu comecei a gaguejar. Ficar noiva é o que vem antes do casamento e, definitivamente, eu nunca sonhei em casar. Mentira. Quando eu namorava o Jorge eu sonhava sim. Mas algo bem simples, numa chácara. Meu vestido seria de chita, branco estampado de flores azuis e uma tiarinha branca na cabeça. E ele de bermuda branca e de camiseta azul clarinho. Só. Simples. E sincero. E com amor. Mas eu nunca sonhei em casar com o Lucas. A gente se dava muito bem, de verdade, principalmente na cama, mas não é só isso. E, enfim, encontrei a desculpinha:
- Eu tenho que terminar a faculdade antes, amor. Porque eu não vou conseguir trabalhar, estudar e cuidar da casa e de você tudo ao mesmo tempo.
Nossa! Ele fez uma cara de desapontamento que deu até dó. Mas eu estava irredutível. E nada do que ele dissesse poderia mudar essa decisão: eu não iria noivar.
- Mas você não precisa estudar. Com o dinheiro que eu ganho nem trabalhar você precisa...
Nem vou entrar em detalhes sobre a discussão que tivemos após esse comentário. Quando ele percebeu a ofensa que me fez com tal posicionamento, se retratou. E tudo ficou bem. Bem mais ou menos, como sempre.
Mas, um dia, a universidade acaba, não é mesmo? Infelizmente não dura para sempre. Às vésperas da minha formatura ele voltou com esse papinho outra vez. Disse que agora que eu já estava formada, poderíamos finalmente nos casar.
Sorte que a carreira acadêmica não termina na graduação. Eu havia tentado mestrado. O resultado saía em fevereiro. Eu não tinha ido muito bem, infelizmente, na prova, mas, pelo menos, eu poderia adiar essa discussão sobre casamento até a data do edital dos aprovados.
Fevereiro. Dia quinze de fevereiro. Às quatorze horas o edital estava lá. E o meu nome não estava nele. Claro que fiquei chateada porque teria que adiar meu sonho de entrar no mestrado por mais um ano, até a próxima seleção, mas o que me entristecia mais era que agora não tinha mais como adiar era a conversa sobre o noivado. E não fugi. E hoje é meu noivado.
Lá fora está tão bonito, mas muito diferente do que sonhei. Aliás, eu não sonhei. Nunca quis casar, com o Lucas. Lá fora tem vinte e cinco mesas, cada uma para oito convidados. Minha sogra espera receber umas duzentas pessoas. E em cima de cada mesa há um arranjo. Pelo menos ela me consultou para escolher as flores. Optei por gérberas brancas. Sim, as gérberas são as minhas flores favoritas. Quando eu cogitava casar com o Jorge, pensava em gérberas brancas. Mas, de qualquer maneira, tudo está muito diferente do que eu esperava.
Eu falei para o Lucas que eu não queria nada, mas, na realidade, eu nem ligo. É como se tudo isso não fosse para mim. E, na verdade, eu gostaria que não fosse. Por isso estou com o telefone na mão. Só espero que o número ainda seja o mesmo. E que os sentimentos também. Porque o que eu sinto nunca mudou, só adormeceu. E eu sinto que eu seria muito mais feliz se pudesse estar ao lado do Jorge agora.
Está chamando...
A cada toque meu coração pulsa mais forte. Toda a minha vida pode mudar e só depende desse telefonema que, eu sei, já deveria ter dado há muito tempo.
Vou esperar chamar dez vezes. Se não der certo eu desligo e não tento outra vez.
Três... Quatro... Cinco... Atendeu!
Meu coração nunca bateu tão forte como agora.
-Alô? Alô?
É uma voz de mulher.
- Alô? Eu vou desligar o telefone se você não falar! Alô?
Desligou.
É tarde.
- Ana? Cadê você?
- Ah, to aqui.
- Por que você ta com essa cara de choro? Tá tudo bem?
- É a emoção do nosso noivado, Lucas. Está tudo do jeitinho que eu sempre sonhei. Vamos? Os convidados da sua mãe já devem estar nos esperando.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Hoje eu encontrei um velho amigo.


Hoje eu encontrei um velho amigo. E, por muito tempo, foi ele quem me incentivou a escrever e já faz alguns anos que eu não escrevia por ele. Por isso, hoje eu escrevo. 

Era minha primeira reunião no emprego novo. Tudo o que eu pensava era em como eu iria impressionar as pessoas, não em como eu iria reencontrá-lo. (É claro que eu já havia imaginado esse reencontro diversas vezes. Até sonhado com ele eu tinha! Mas, confesso, nunca esperei que, realmente, isso viesse, um dia, acontecer. Achava que era coisa da minha cabeça.) No trabalho, eu estava na minha mesa, já no final do expediente, organizando alguns papéis, quando, no meu relógio de pulso - que costumo deixar cinco minutos adiantado, para não perder a hora -, eram seis horas. Eu gosto quando o ponteiro grande do relógio está no doze e o pequeno no seis. É hora de juntar as coisas e ir para casa. Ou tomar um café. Eu tenho o hábito de tomar café após o trabalho. E há duas quadras de onde eu trabalho agora tem uma padaria. O meu primeiro dia tinha sido bom e eu merecia um café. No caminho já havia até escolhido o que iria beber: como foi um bom primeiro dia, eu merecia um café mais elaborado - pensei até em optar por um daqueles com sorvete. Hoje era meu dia: além de ter dado tudo certo no emprego novo, tinha uma vaga de estacionamento bem em frente ao estabelecimento. Digo que foi sorte encontrá-la porque é uma rua bastante movimentada, ainda mais esse horário. Desliguei o som do carro - estava tocando uma música que faz lembrar meu último ex-namorado (Olha Maria, do Chico Buarque). Peguei minha bolsa e fui em direção à porta, guardando a chave do carro. Quando olhei para a porta - só para me certificar se estava entrando no local certo ou sei lá, para ter certeza de que não iria tropeçar na entrada - vi um rosto conhecido. Meu coração bateu mais rápido. Um rosto que há muito tempo eu não via. Meu coração acelerou. Era ele. De novo. Ali. Parado. Dois copos de café na mão. Tentei disfarçar a cara de surpresa (estava mais para felicidade!). Ele percebeu. Não havia como não perceber. Eu sempre fico sem reação próxima dele, mas sorrio. E sorri. E disse oi, de longe, mas minha vontade era abraçá-lo e sentir o cheirinho de amaciante na sua camiseta. Me contive, lógico! Mas talvez o problema seja esse, eu vivo guardando para mim o que verdadeiramente sinto. E guardo por muito tempo. Ele respondeu meu cumprimento e olhou para dentro da padaria, como se estivesse procurando alguém. Eu tinha tantas coisas para dizer à ele, tantas perguntas... Mas é como se a presença dele me calasse, como se o que eu ainda sinto por ele fosse maior do que tudo o que tenho para dizer à ele. E toda vez que eu olhava em seus olhos (eles são verdes, mas tem umas pintinhas cor de caramelo) quase esqueço daquela tarde de sábado em que ele se foi sem despedir-se e, principalmente, o motivo. E agora ele estava ali, na minha frente, e eu poderia aproveitar e dizer o que sinto: que o amor não morreu e que, se prometêssemos fazer tudo certinho dessa vez, que eu estava disposta a começar tudo de novo. Mas eu olhava para ele e meus lábios tremiam sem palavras. Eu não tinha coragem. Já havia passado tanto tempo e tanta coisa havia mudado. Eu não poderia simplesmente chegar e lhe dizer isso. E não disse (atitude bem característica minha). Não disse isso, mas perguntei se estava tudo bem e outras trivialidades, tentado dar continuidade ao assunto. Eu não conseguia falar de amor à ele, mas conversar e ouvir sua voz novamente era, para mim, um prazer ímpar. Eu precisava levar aquela conversa à diante. Perguntei, então, sobre o andamento do mestrado. Enquanto ele me contava sobre como estava concluindo sua dissertação, eu o observava. Olhava atentamente cada detalhe: ele estava com o cabelo aparado (perdi as contas de quantas vezes tive que implorar para ele cortar os cabelos), mais magro e deixou a barba crescer. Acho que o passar do tempo tem feito bem para ele. Talvez para mim também. Talvez. Enquanto eu contava sobre meu novo trabalho, aproveitei para dar uma olhadinha em como ele estava vestido: calçava all star, uma camiseta vermelha sem estampa e uma bermuda jeans azul clarinha. O mesmo jeitinho. Ele não havia mudado nada. E isso era tão bom. Significava que, talvez, os sentimentos também não tivessem mudado. Ao voltar meus olhos aos dele, percebi que outra vez ele olhava para dentro da loja e que, de dentro dela, saía alguém em sua direção. Uma mulher de meia idade, média, loira e de crocs cor-de-rosa. Ela, que segurava uma sacola da padaria com a mão direita, com a esquerda o abraçou pela cintura e lhe deu um beijo. Em seguida, olhou para mim. Então, ele nos apresentou:
- Hoje eu encontrei uma velha amiga: essa é a Ana. Ana, essa é minha esposa.
Não sei dizer se ele falou mais alguma coisa, porque a partir daí eu não ouvi mais nada. Entrei na padaria, sentei no balcão e pedi um café preto, puro e sem açúcar para me ajudar a engolir o que acabara de ouvir, junto com todo aquele sentimento que renascera ao vê-lo outra vez.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

hoje eu descobri porque (me) escondo tanto: é porque não posso e nem tenho o que fazer com meus sentimentos.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

eu queria poder escrever sobre as coisas que carrego comigo, e ninguém sabe. não é porque eu não as digo à ninguém que elas não existem. existem. e pulsam. insistem em sair, mas eu sou mais forte e mantenho-as guardadas para ninguém ver. e, de fato, ninguém as vê. 

sábado, 15 de janeiro de 2011

se eu pudesse recordar e ser criança
se eu pudesse renovar minha esperança
se eu pudesse me lembrar como se dança

já ninguém chora mais por ninguém

Diz que fui por aí

Se alguém perguntar por mim
Diz que fui por aí
Levando um violão debaixo do braço
Em qualquer esquina eu paro
Em qualquer botequim eu entro
Se houver motivo
É mais um samba que eu faço
Se quiserem saber se volto
Diga que sim
Mas só depois que a saudade se afastar de mim
Tenho um violão para me acompanhar
Tenho muitos amigos, eu sou popular
Tenho a madrugada como companheira
A saudade me dói, o meu peito me rói
Eu estou na cidade, eu estou na favela
Eu estou por aí
Sempre pensando nela

Composição: Zé Keti / Hortêncio Rocha
para algumas coisas existem remédio, para outras não e, nesses casos, o melhor é recomeçar e reconstruir.

napa (13.01.2011)

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Querida Alice,

Não te conhecia direito, por sermos de histórias diferentes, e por isso mesmo eu a quis desde o primeiro instante. Mas tive medo. E me calei, porque as palavras escapam e sempre me enganam.  Peço desculpas por ter-me mantido em silêncio por tanto tempo, mas, por favor, tente ser paciente e saiba que ainda estou aprendo. Eu sei, eu sei, você não pode fazer tudo, mas também não pode dizer que eu não tentei. Entendo as dificuldades que tens enfrentado por aí, em seu país, e me perdoe por não ter estado ao seu lado quando você estava chorando, mas enquanto eu estava em sua frente, você parecia enxergar além de mim, um simples lenhador. Eu só quero que você entenda, Alice, que eu tenho os meus problemas também, e precisava da sua mão estendida à mim. Talvez, se eu não tivesse me colocado em segundo plano para satisfazê-la, eu poderia ter entrado realmente na sua história e ter passado contigo pela portinha que dava entrada ao país maravilhoso. Mas, de qualquer maneira, acho que não teria dado mesmo certo. Nossas maravilhas são diferentes e nos mantém distantes. Ademais, eu nunca soube se você estava realmente ali ou se eu estava sonhando. E você sabe, Alice, eu não sei distinguir sonhos de realidade. Mesmo agora, depois de tanto tempo sem ver seu rosto, escutar suas palavras e ler suas cartas, ainda posso recordar nossas aventuras pelas histórias fantásticas, que tanto me faziam rir. E, quando eu fico sozinho, lembro do som da sua gargalhada. E da sua voz. Mas se o sorriso era verdadeiro e as palavras também, por quê? Será que você acreditava mesmo em mim? Será que você teria mesmo ido embora se soubesse que eu realmente tentei ser uma pessoa melhor para satisfazer você? Se você tivesse esperado só mais um pouquinho para tomar a poção, se tivesse sido mais forte, teríamos atravessado juntos e você não precisaria ter ido embora e eu não estaria livre sem direção. Você ainda é tudo para mim... Mas não posso mais fazer o que me pede. Por isso, acho que é tempo de desistirmos. É melhor, Alice, pararmos de insistir. Somos de histórias diferentes e caminhos diferentes. Não posso deixar de salvar a Chapeuzinho Vermelho no final de cada história. Eu sou o lenhador. Essa é minha função: andar sempre em frente e dar finais felizes, a quem permitir...

Com amor e saudade,
O Lenhador.