segunda-feira, 14 de abril de 2008

domingo, 13 de abril de 2008

Hoje não é dia de sol.

Hoje não é dia de sol. Em dia que não é dia de sol, é dia de ficar com o a pontinha do nariz bem grudada na janela, olhando as gotinhas de chuva que caem do céu. Hora chuva mais fraca, hora bem fortona. Tem horas que parece música, daquelas pra gente dormir.
Em dia de chuva não se pode brincar lá fora. O bom é que o universo mágico é aqui mesmo, bem em baixo dos meu pés.
De olhos fechados, sentindo ainda meu nariz encostado à janela, conheço mil lugares, sem tirar os pés do chão. Mas, eu posso voar com as asas da imaginação e abraçar o mundo só com um braço.
Nos meus delírios particulares e faço tudo e posso tudo.
Dia desses, venci um gigante e ainda fiquei com a galinha dos ovos de ouro e também, teve uma vez, que dormi como a bela adormecida. Não fui acordada com um beijo, nem nada. Mas valeu a pena, pois os anões foram muito simpáticos comigo.
O que mais gosto de tudo isso é brincar de descobrir o mundo: descobrir um animal novo, uma cor nova no arco-íris, uma terra distante, um livro esquecido, uma pessoa perdida.
Certa vez, eu descobri uma pessoa perdida. Eu também estava perdida, mas não estou falando de mim. Era outra pessoa. E foi ali que eu encontrei a peça do quebra-cabeça de mil peças que faltava. Agora o quebra-cabeças gigante está completo. Tirei uma foto com cara de feliz e colei no álbum da minha memória.
Depois deste dia, resolvi nunca mais descolar o nariz da janela, só para passar o tempo todo vivendo o sonho da realidade. Então eu tirei o nariz da janela e fiquei só com o sonho da realidade. Depois eu tirei o sonho e fiquei só com a realidade.

E foi aí que o nosso mundo virou nosso, e girou...
E agora nós sabemos que todas as palavras eram verdadeiras, mesmo nas canções mais bregas.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

sábado, 5 de abril de 2008

João (s) e (m) Maria

Agora eu era o herói
E o meu cavalo só falava inglês
A noiva do cowboy
Era você além das outras três
Eu enfrentava os batalhões
Os alemães e seus canhões
Guardava o meu bodoque
E ensaiava o rock para as matinês

Agora eu era o rei
Era o bedel e era também juiz
E pela minha lei
A gente era obrigado a ser feliz
E você era a princesa que eu fiz coroar
E era tão linda de se admirar
Que andava nua pelo meu país

Não, não fuja não
Finja que agora eu era o seu brinquedo
Eu era o seu pião
O seu bicho preferido
Vem, me dê a mão
A gente agora já não tinha medo
No tempo da maldade acho que a gente nem tinha nascido

Agora era fatal
Que o faz-de-conta terminasse assim
Pra lá deste quintal
Era uma noite que não tem mais fim
Pois você sumiu no mundo sem me avisar
E agora eu era um louco a perguntar
O que é que a vida vai fazer de mim?

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Chapeuzinho Amarelo

Era a Chapeuzinho Amarelo.
Amarelada de medo.
Tinha medo de tudo,
aquela Chapeuzinho.
Já não ria.
Em festa, não aparecia.
Não subia escada
nem descia.
Não estava resfriada,
mas tossia.
Ouvia conto de fada
e estremecia.
Não brincava de mais nada,
nem de amarelinha.

Tinha medo de trovão.
Minhoca, para ela, era cobra.
Nunca apanhava sol
porque tinha medo da sombra.
Não ia pra fora pra não se judar.
Não tomava sopa pra não ensopar.
Não tomava banho para não descolar.
Não falava nada para não engasgar.
Não ficava em pé com medo de cair.
Então vivia parada,
deitada, mas sem dormir,
com medo de pesadelo.

Era a Chapeuzinho Amarelo.

E de todos os medos que tinha,
o medo mais que medonho
era o medo do tal do LOBO.
Um LOBO que nunca se via,
que morava lá para longe,
do outro lado da montanha,
num buraco da Alemanha,
cheio de teia de aranha,
numa terra tão estranha,
que vai ver que o tal do LOBO
nem existia.

Mesmo assim a Chapeuzinho
tinha cada vez mais medo
do medo do medo do medo
de um dia encontrar um LOBO.
Um LOBO que não existia.

E Chapeuzinho Amarelo,
de tanto pensar no LOBO,
de tanto sonhar com LOBO,
de tanto esperar o LOBO,
um dia topou com ele
olhão de LOBO,
jeitão de LOBO,
e principalmente um bocão
tão grande que era capaz
de comer duas avós,
um caçador,
rei, princesa,
sete panelas de arroz
e um chapéu
de sobremesa.

Mas o engraçado é que,
assim que encontrou o LOBO,
a Chapeuzinho Amarelo
foi perdendo aquele medo,
do medo do medo do medo
de um dia encontrar um LOBO.
Foi passando aquele medo
do medo que tinha do LOBO.
Foi ficando só com um pouco de medo daquele lobo.
Depois acabou o medo
e ela ficou só com o lobo.

O lobo ficou chateado
de ver aquela menina
olhando para a cara dele,
só que sem o medo dele.
Ficou mesmo envergonhado,
triste, murcho e branco-azedo,
porque um lobo, tirado o medo,
é um arremedo de lobo.
É feito um lobo sem pêlo.
Lobo pelado.

O lobo ficou chateado.


E ele gritou: sou um LOBO!
Mas a Chapeuzinho, nada.
E ele gritou: sou um LOBO!
Chapeuzinho deu risada.
E ele berrou: EU SOU UM LOBO!!!
Chapeuzinho, já meio enjoada,
com vontade de brincar
de outra coisa.
Ele então gritou bem forte
aquele seu nome de LOBO
umas vinte e cinco vezes,
que era pro medo ir voltando
e a menina saber
com quem não estava falando:

LO-BO-LO-BO-LO-BO-LO-BO-LO

Aí,
Ela se encheu e disse:
"Pára assim! Agora! Já!
Do jeito que você está!"
E o lobo parado assim
do jeito que o lobo estava
já não era mais um LO-BO.
Era um BO-LO.
Um bolo de lobo fofo,
tremendo que nem pudim,
com medo da Chapeuzim.
Com medo de ser comido
com vela e tudo, inteirim.

Chapeuzinho Amarelo não comeu
aquele bolo de lobo,
porque sempre preferiu
de chocolate.
Aliás, ela agora come de tudo,
menos sola de sapato.
Não tem mais medo de chuva,
nem foge de carrapato.

Cai, levanta, se machuca,
Vai à praia, entra no mato.
Trepa em árvora, rouba fruta,
depois joga amarelinha
com o primo da vizinho,
com a filha do jornaleiro,
com a sobrinha da madrinha
e com o neto do sapateiro.

Mesmo quando
está sozinha,
inventa
uma brincadeira.
E transforma
em companheiro
cada medo que ela tinha:
o RAIO virou ORRÁI,
BARATA é TABARÁ,
a BRUXA virou XABRU
e o DIABO é BODIÁ.

Ah, outros companheiros da Chapeuzinho Amarelo: o GÃODRA, a JACORU, o BARÃO-TU, o PÃO BICHÔPA e todos os TROSMONS.

Chico Buarque
As pessoas querem seguir sempre em frente, mas o que ainda não aprenderam é que quem anda sempre em frente, não pode ir muito longe...